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Concerto: Música e Retórica

Música e Retórica: Música para voz e violino do século XVII

 

 

Músicos-pesquisadores

 

Luiz Fiaminghi, violino (UDESC), Leticia Bertelli, voz (Coral Lírico do Palácio das Artes), Raquel Aranha, violino (UNICAMP), Silvana Scarinci, teorba (UFPR)

 

Programa

Tarquinio Merula (Cremona/Veneza,1594 -1665)

Nigra sum

Gaudeamus omnes

Dario Castello (Veneza, 1590 -1658)

Sonata concertante in Stil Moderno, n.3, Livro III

Henry Purcell (Londres, 1659 -1695)

The Plaint

Fairest isles

Heinrich Franz Biber (Salzburgo, 1644 -1704)

Sonatas do Rosário, X, Cruxificação
Henry Purcell (Londres, 1959 – 1695) If Music be the food of Love

Giovanni Felice Sances (Roma, 1600 – 1659)

Usurpator Tirano

Barbara Strozzi (Veneza, 1619 – 1677)

Hor che Appolo

 

 

Música e Retórica, Luiz Henrique Fiaminghi.

 

O poder da música como meio de persuasão e convencimento é conhecido desde a Antiguidade. A importância dessa associação é representada plenamente pelo mito de Orfeu, aparecendo também, de maneira indireta, na referência que Quintiliano faz na Institutio oratoria (I, 165-177) sobre o papel central do conhecimento musical para a eficiência do orador.  Com a retomada da retórica clássica promovida pelo Humanismo no séc. XV, a situação se inverteu: se outrora a música era considerada modelo de linguagem capaz de mover e persuadir até mesmo as bestas incógnitas, no Barroco a retórica passou a exercer uma força central e propulsora em todo campo da música. Durante o séc. XVII, numerosos tratados foram escritos sobre a classificação das figuras retóricas musicais, tendo como modelo os manuais de retórica de Cícero e Quintiliano. Joachim Burmeister (1564-1629) e sua Musica Poetica (1606) inaugurou uma linha de tratados dedicados à retórica musical com a intenção de elevar a musica pratica ao patamar das disciplinas do Quadrivium, ou seja, aproximá-la das ciências matemáticas, da lógica e da musica speculativa. Athanasius Kircher (1601-1680), jesuíta e matemático, em seu Musurgia universalis (Roma, 1650), apresenta o papel das figuras retóricas musicais como preceptiva dos afetos musicais, que vai determinar o pensamento retórico musical de autores posteriores como Johann Mattheson (1681–1764). O espelhamento da linguagem musical nos preceitos da retórica é um ponto comum nos tratados musicais do séc. XVIII. Francesco Geminiani (ca. 1687-1762) escreveu no prefácio do The Art of Playing on the Violin (1751):

 

A intenção da Música não é apenas agradar ao ouvido, mas expressar sentimentos, despertar a imaginação, afetar a mente e comandar as paixões. A Arte de tocar o violino consiste em dar a este instrumento um som que deve, de algum modo, rivalizar com a mais perfeita voz humana e em executar cada peça com exatidão, propriedade e delicadeza de expressão, de acordo com a verdadeira intenção da Música. (GEMINIANI, 1751).

 

O distanciamento da definição de música dada por Geminiani do conceito de música pura encontrada no Von Musikalisch Schönen (1854) de E. Hanslick, que entende o belo musical como “um belo que, sem depender e sem necessitar de um conteúdo exterior, consiste unicamente nos sons e em sua ligação artística” (HANSLICK, 1989, p. 61), nos dá uma dimensão da importância que os parâmetros retóricos significavam para a música nos séculos XVII e XVIII. No alvorecer do séc. XIX, já em pleno declínio da retórica e ascensão da estética, encontramos inesperadas referências aos grandes “oradores musicais” do passado, o que indica a consciência existente na maestria de uma música regrada pelos afetos. J. N. Forkel (1749 – 1818), o primeiro biógrafo de J. S. Bach, que concluiu sua biografia em 1802, refere-se ao mestre de Leipzig como “esse homem, o maior poeta musical e o maior orador musical que existiu até hoje, e provavelmente que existirá, era alemão” (FORKEL, apud KERMAN, 1987 p. 35).

 

O estudo da retórica musical hoje se apresenta como um campo promissor para interpretação da música dos sécs. XVII e XVIII por uma ótica não romântica e para análise dessas obras através de ferramentas autóctones.

 

© 2018   II Congreso Brasileiro de Retórica Versão 11.01.13