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Resumos das comunicações

TERÇA FEIRA, dia 28, 14h00 às 16h00

 

Sessão de comunicação 1

 

1 - Da filosofia à eloquência no Orator de Cícero. SILVA, Francisco de Assis Costa da (UERN)

Considerado um dos oradores mais destacados de seu tempo, Cícero nos chama a atenção não só por sua atuação nos tribunais, mas por sua produção, tanto no campo da eloquência, quanto no campo filosófico e político. Para ele a filosofia torna-se importante ferramenta na produção da argumentação. Por isso nossa pesquisa tem o propósito de estabelecer uma relação dialógica e intrínseca entre o conteúdo filosófico e a retórica ciceroniana, expressa na literatura. A eloquência, segundo Cícero, não é tirada da oratória, mas da filosofia. Ele se confessa um orador, formado não nas oficinas dos oradores, mas pela academia. Segundo ele, ambas se complementam. E mais, o nosso autor critica ferozmente aqueles que acreditam que o simples fato de falar, torna-os oradores. Assim, nosso estudo irá demonstrar que o conteúdo filosófico e a obra literária podem ser aliados na conquista da verdade e na capacidade que o poeta tem de persuadir o destinatário para esta mesma verdade.

 

2 - A retórica do exílio: o emprego de figuras de repetição e de acumulação nas cartas exílicas de Cícero. COSTA, Marco Antônio da (UFMG)

Esta comunicação tem por objetivo identificar e explicar o emprego de figuras de repetição e de acumulação nas cartas escritas por Cícero durante seu exílio (58-57 a.C.). Trata-se de um estudo relevante para demonstrar a interação entre retórica e epistolografia. Por concentrar-se quase exclusivamente nos discursos de Cícero, a maior parte dos estudos concernentes à aplicação de elementos retóricos feita por esse escritor negligencia o fato de que ele empregou vários recursos oratórios também em suas cartas a fim de amplificar o aspecto emocional de sua comunicação, visando à produção de sentimentos e ações favoráveis a si por parte de seus destinatários. Para essa comunicação, adota-se um corpus formado por três cartas selecionadas dentre um conjunto de trinta e quatro escritas durante o exílio de Cícero. Nessas três cartas, dirigidas respectivamente à esposa Terência, ao irmão Quinto e ao melhor amigo Ático, Cícero coloca sua habilidade oratória a serviço de suas emoções em um dos momentos mais tempestuosos de sua vida.

 

3 - Reflexões sobre tradução no De finibus de Cícero e a refutação do pensamento estóico. LIMA, Sidney Calheiros de (DLCV-FFLCH-USP)

Ambientado em uma vasta biblioteca, situada numa uilla em Túsculo, recentemente herdada por um jovem aristocrata romano, o segundo diálogo do De finibus de Cícero (livros III e IV) comporta a difícil tarefa de discutir em latim o pensamento moral dos antigos estóicos. Antes de tratar da ratio stoicorum, Cícero e Catão, o jovem, as personagens em cena, refletem sobre as estratégias de que podem se servir para traduzir para o latim os conceitos forjados em grego por Zenão e Crisipo. A discussão remete o leitor ao início do tratado (e também ao livro I dos Academica posteriora, composto e publicado alguns meses antes do De finibus; ambos em 45 a.C.) em que grande espaço é dado à questão da pertinência de se expor em latim a filosofia grega. Nosso objetivo é investigar o modo como a discussão sobre a tradução, no início do livro III do De finibus, ajusta-se, nem sempre de modo simples, à refutação da moral estóica empreendida pela personagem de Cícero ao longo do livro IV.

 

4 - Orator , 8-10  e a arte da memória segundo Cícero. CHIAPPETTA, Angélica (EACH/USP)

Na passagem do De oratore (II, 350-360) em que se refere à arte da memória, Cícero lembra que para memorizar algo é preciso transformá-lo em imagens mentais e colocá-las em lugares mentais previamente ordenados. A técnica funciona porque são facilmente conservadas em nosso ânimo coisas recebidas pelos ouvidos ou pelo pensamento que aí chegariam com a recomendação dos olhos (De.or. II, 357-358). A memória pode traduzir o discurso em uma espécie de teatro interior já que reproduz na interioridade do ânimo as paixões que as figuras promovem na exterioridade da elocução. Em Orator, 1-19, Cícero apresenta o orador ideal ressaltando que, perfeito, ele não existe no mundo exterior; o que não quer dizer que não se lhe possa fazer o retrato. Aproxima, então, a eloquência à pintura e à escultura. Diz que Fídias não tinha diante de si Júpiter ou Minerva quando esculpiu suas estátuas (Orator, 9); bastou-lhe olhar em sua mente para que a imagem aí encontrada guiasse sua mão e sua arte e produzisse a semelhança desejada. A presente comunicação discute essa passagem do Orator (8-10) relacionando-a com a técnica dos lugares e imagens como Cícero a apresenta ao falar da arte da memória.

 

 

Sessão de comunicação 2

 

1 - A canção popular como situação retórica: análise retórico-discursiva de canções buarquianas com temática sócio-política no período da ditadura. OLIVEIRA, Adriano Dantas de (USP)

No presente trabalho, analisaremos uma amostra de canções buarquianas com temática sócio-política no período da ditadura no Brasil, espaço e tempo delineados por tensões, por controvérsias e por embate de ideias e de ideais, fatores que dão à Retórica, lugar de destaque. Utilizaremos, como arcabouço teórico, a retórica clássica, as neo-retóricas e a semiótica tensiva. Por meio desse modelo de análise interdisciplinar, analisaremos de que forma, se dá a articulação dos componentes da trilogia retórica:  ethos, pathos e logos. Buscaremos, assim, compreender em que medida o compositor se coloca como um orador, durante um período de ditadura, em que os sujeitos são sobredeterminados em sua própria condição de sujeitos, de constituição e de reconhecimento: no uso da linguagem. Dessa forma, verificaremos de que maneira a retórica fornece possibilidades de instaurar um discurso de resistência frente a um regime militar, velando os recursos argumentativos, os traços ideológicos e os sentidos em uma situação retórica tipificada por meio de canções como cena de enunciação com propósitos comunicativos específicos: suscitar diferentes paixões em relação à situação do país a partir de temas fundamentais comuns. Elementos que são percebidos e compreendidos a partir dos textos das canções, apenas, se discursivizados.

 

2 - Análises argumentativas em Tom Jobim: aproximações entre Música e Retórica. SIMÕES, Alan Caldas (UFRJ/UFES)

A presente pesquisa busca analisar os processos argumentativos contidos em um corpus de pesquisa composto por três músicas de Tom Jobim: Ana Luíza, Lígia e Luíza. Tal compositor, reconhecido no Brasil e no exterior como um dos mais importantes da segunda metade do século XX, foi um dos idealizadores do movimento musical conhecido como Bossa Nova. Dentre as temáticas mais comuns de composição, Tom Jobim escreve sobre o amor ideal, a saudade e a mulher. Acreditamos que emAna Luíza, Lígia e Luíza o compositor defende a tese: Eu amo as mulheres. Dessa forma, pautados no aporte teórico-medodológico das teorias argumentativas (Cf. Perelman, 1996) e discursivas de linguagem (Cf. Charaudeau, 2008; Amossy, 2005), pretendemos analisar as estratégias argumentativas utilizadas por Tom Jobim, na construção de sua argumentação. Sabemos que uma interseção entre música e retórica (ou argumentação) é possível, embora ainda pouco pesquisada, sendo em sua maioria estudos sobre a retórica musical do período barroco. A partir de nosso estudo, pretendemos incentivar a articulação dos elementos do discurso musical com os elementos textuais e argumentativos de composições populares.

 

3 - Análise retórica do debate acerca da obrigatoriedade do ensino de música no Brasil. ALVARENGA, Claudia Helena (UNESA) / MAZZOTTI, Tarso Bonilha (UNESA)

A Lei 11.769/2008 determinou a obrigatoriedade do ensino de Música na Educação Básica, uma campanha que teve origem no debate entre profissionais da música para o estabelecimento de um plano de políticas públicas para a música brasileira, convocado pelo Ministério da Cultura. Os valores que os grupos sustentam a respeito da música e seu ensino transparecem no debate e a análise retórica dos esquemas argumentativos permite compreender os processos identitários concernentes às musicalidades que defendem. A Lei foi sancionada com o veto a que professores com formação específica na área ministrassem o conteúdo de música. O Ministro da Educação justifica o veto, afirmando que existem músicos atuantes e reconhecidos no Brasil, que ficariam impossibilitados de ministrar tal conteúdo, pois não possuem formação acadêmica na área. Esta decisão assinala quais as musicalidades são as mais favoráveis para as políticas educacionais do país, ancorada em noções românticas de identidade social. As concepções de música se apoiam, majoritariamente, nos lugares da qualidade, por meio da dissociação de noções e das ligações de coexistência, de tal modo que prevalecem as noções de que o verdadeiro o artista é genial e a obra de arte é fruto de seu talento.

 

4 - Ouvir Ovídio: interpretações de Ars amatoria em áudio. OLIVEIRA, Márcia Ramos de (UDESC)

Esta comunicação ocupa-se em descrever uma experiência de docência nas aulas da disciplina de História Antiga, no Curso de graduação em História/UDESC, a partir do registro de documentos históricos e literários, através do recurso da gravação em áudio. Os textos, relação de trechos de documentos, foram previamente definidos pelo docente e depois escolhidos pelos grupos de alunos para realização do registro em áudio. Para tal atividade poderiam fazer uso de diferentes recursos, envolvendo sonoplastia e performance, de acordo com a interpretação dada a obra e autor. Entre os textos, encontravam-se trechos do Ars amatoria de Ovídio, ainda que em versões previamente traduzidas na língua portuguesa. Diante do material produzido pelos alunos, algumas versões foram escolhidas como alvo desta comunicação, pretendendo-se identificar nestes áudios possíveis aproximações entre os recursos de enunciação utilizados frente aos mecanismos retóricos associados ao texto ovidiano.  

 

 

Sessão de comunicação 3

 

1 - Verdade e flechas: a retórica dos antigos persas. FERNANDES, Edrisi (UnB)

O saxão Friedrich Nietzsche foi um filólogo e filósofo que estudou muito a retórica dos antigos, e algumas de suas anotações (de 1872?) são conhecidas como Curso de Retórica. Em sua obra mais importante, Assim Falava Zaratustra (1885), através de seu personagem-título Nietzsche dá voz a um profeta persa redivivo, que em certa passagem afirma: “'Dizer a verdade e saber manejar bem o arco e as flechas' - Isso parecia caro, ao mesmo tempo que difícil, para o povo donde vem o meu nome”. A afirmação de Zaratustra, ecoada por Nietzsche, fundamenta-se em Heródoto (Histórias, 1.136), que afirma que os persas ensinavam aos seus filhos apenas três preceitos: cavalgar, manejar o arco e flecha e dizer a verdade. Estudamos alguns textos da época Aquemênida, originalmente escritos em vetero-persa, com a intenção de mostrar o que os mesmos podem nos ensinar sobre a associação entre a verdade e as flechas na retórica dos antigos persas, devotos do deus Ahura-Mazdâ. Uma passagem do livro sagrado dos zoroastrianos elogia o (mítico?) rei Vishtâspa, patrono de Zaratustra, como sendo “aquele que, expulsando a mentira (avéstico druj; vetero-persa drauga) procurou espaço para a Verdade/Retidão/Ordem (avéstico Asha; vetero-persa Arta) ritual, que expulsando a desordem procurou espaço para a Verdade/Retidão/Ordem cósmica, fazendo-se o arco e a flecha para essa lei de Ahura [-Mazdâ], para essa lei de Zaratustra” (Zam [ou ZamyâdYasht do Khorde Avesta, 85-86). Em nossa investigação, analisamos o lugar privilegiado do conceito de Verdade/Retidão/Ordem na retórica da religião zoroastriana e o emprego ideológico de associações com esse conceito promovidas pelos soberanos Aquemênidas, e revisamos algumas passagens vetero-persas e de Heródoto onde o antigo ato persa de disparar flechas tem vinculação com sua retórica.

 

2 - O príncipe armênio e o sofista na Ciropédia de Xenofonte. LIMA, Alessandra Carbonero Lima (FEUSP)

Na Ciropédia, em III, 1, o rei armênio está sob julgamento. Ele traíra persas e medas, pelo que pode ser sentenciado à morte. Ciro, o velho, é o juiz. Tigrane, filho do rei, quer apresentar uma defesa do pai. Ciro permite. Lembra-se de que, na juventude, ele e Tigrane foram companheiros de equitação e que, na ocasião, o príncipe armênio se fazia acompanhar de um sofista. Eis a razão pela qual Ciro lhe concede a palavra. No discurso de defesa que então se segue poderemos identificar algo do que Tigrane aprendera junto ao mestre. Em outra de suas obras, no Sobre a caça, em 13, 1-9, Xenofonte apresenta um crítica severa ao ensino dos sofistas. Assim, exploraremos o conteúdo do discurso de defesa de Tigrane, buscando compreender em que medida o mestre de Tigrane pode ser relacionado às considerações de Xenofonte, no Sobre a caça, sobre a figura do sofista.

 

3 - Cleon e Diódoto - a democracia ateniense sobre o abismo do embate retórico. BUENO E SILVA, Luís Filipe Trois (UFSC-PPGF)

A antilogia de Cleon e Diódoto registra um ponto de inflexão no ânimo da democracia ateniense.  Não apenas isto. Reflete precisamente o abismo sobre o qual aquele regime balouçava. Esta antilogia, pois, ensejada pela assembleia que decidiria o destino de Mitilene, ainda exemplifica uma deliberação, conquanto turbulenta, na qual a linguagem argumentativa consegue manobrar a divisão da pólis e sinalizar a melhor escolha para o corpo cívico. Em um contexto em que os oradores trocam acusações de manipulação do discurso e das palavras, e no qual a “a bela fachada” (onoma euprepres) se faz “ilusória” (proskema), enquanto Cleon propõe as posturas mais enérgicas e punitivas possíveis contra as sublevações ocorridas em Mitilene, Diódoto, responde que tal medida recrudesceria ainda mais os ânimos em um momento em que Atenas precisava garantir o apoio de seus aliados e o respeito das póleis em situação de neutralidade. Depois da arenga entre Diódoto e Cleon, Tucídides evidencia a perda da capacidade de negociação por parte das instituições democráticas com as animosidades e discordâncias dentro da comunidade ateniense, porquanto as decisões da assembleia se mostrariam, a partir de então, todas elas, desastrosas para a sobrevivência da cidade.

 

 4 - O nascimento da reductio ad absurdum na dialética de Zenão de Eleia e sua aplicação no Direito Romano Clássico. MATOS, Andityas Soares de Moura Costa (UFMG)/NASCIMENTO, Pedro Savaget (UFMG)

reductio ad absurdum é uma forma de demonstração argumentativa indireta pela qual se desqualifica a opinião contrária (contra-valente) para se concluir pela validez da solução adotada ou, no mínimo, reforçá-la contra possíveis objeções por meio da alegação de que o contrário é impossível. Essa ferramenta dialética aparece pela primeira vez na dialética do filósofo pré-socrático Zenão de Eleia, que, dentro do contexto grego de debate livre entre escolas filosóficas rivais, utiliza a reductio ad absurdum para defender a Teoria da Unidade do Ser de Parmênides por meio da evidenciação das contradições inerentes às teorias rivais, em especial a dos pluralistas. Os juristas romanos, que se apropriaram da filosofia grega para fundamentar filosoficamente o Direito Romano Clássico, utilizaram areductio ad absurdum com o fim de conferir efetividade e coerência ao sistema jurídico, garantido que nenhuma contradição interna prejudicasse suas máximas fundamentais de prudência, boa-fé, justiça e efetividade, qualidades entendidas dentro do específico contexto político-jurídico que então se vivia. Destarte, trazendo para o campo da argumentação jurídica elementos do pensamento reflexivo grego, os juristas romanos estabeleceram um cânone argumentativo indissociável da contemporânea Teoria da Argumentação Jurídica.

 


Sessão de comunicação 4

 

1 - A noção de entimema na Retórica de Aristóteles e algumas implicações para a teoria da ação. MAGALHÃES, Raul Francisco (UFJF)

A noção aristotélica de entimema aparece exclusivamente na Retórica, envolta em um campo complexo de significados.  Ela oferece a possibilidade de refletirmos sobre um tipo de argumento crucial na operação da assembleia da polis grega. Trata-se do argumento operar um “salto” lógico entre uma premissa apenas provável, apresentada como verdade, e uma conclusão com caráter necessário. Esse movimento, ilegítimo de acordo com as regras do bom raciocínio, é a fórmula por excelência do debate público que tem fins deliberativos. Enfim a própria democracia é o espaço dos entimemas que ajudam um grande número de não-especialistas decidir os rumos da polis. A aparência lógica do argumento deve ser realçada para que o cidadão comum se identifique com o entimema enquanto razão suficiente para deliberar, considerada a constante falta de informações conclusivas sobre os temas controversos que alimentam a política. De tal forma é possível imaginar que o uso do entimema na verdade descreve o próprio processo de ação deliberativa em seus aspectos cognitivos (como o ator entende o problema por meio do entimema) e operativos (como o salto lógico tem como consequência um ato de escolha pública).  Enfim, a proposta aproxima a teoria da retórica da teoria da ação.    

 

2 - A gramática do entimema e a racionalidade dos conflitos na retórica aristotélica. SAES, Sílvia Faustino de Assis (UFBA)

M. F. Burnyeat, no ensaio EnthymemeAristotle on the Rationality of Rhetoric contesta a visão, amplamente aceita e difundida, de que os entimemas ― argumentos retóricos ― podem ser explicitados como “silogismos abreviados”. Segundo esse autor, a lógica dedutiva não pode ser o modelo explicativo apropriado ao entimema, sobretudo porque não consegue incorporar a dimensão do conflito entre conclusões opostas que se baseiam nas mesmas premissas, conflitos estes presentes na maioria dos contextos originais de usos da retórica. Dada a relevância desta interpretação para os estudos contemporâneos acerca da retórica aristotélica, o objetivo deste trabalho será o de tentar aprofundar essa linha de consideração, concebendo o entimema como um paradigma de jogos de linguagem, cuja gramática pode levar em conta o desacordo sobre os juízos, para utilizarmos expressões do último Wittgenstein. Se isso está certo, será possível mostrar o quanto o antigo entimema aristotélico, assim concebido, vem iluminar o que se chama, na contemporaneidade, de ‘racionalidade normativa’.

 

3 - O entimema na retórica Aristotélica. NASCIMENTO, Joelson Santos (UFS)

A formação do silogismo e de suas conclusões pode originar-se de premissas que já foram demonstradas através de silogismos ou, ao contrário, de premissas que ainda não foram demonstradas (quando não existe um consenso sobre as proposições apresentadas). A demonstração proveniente da primeira torna-se mais difícil pela grande quantidade de premissas usadas pelo orador, e isso pode causar no público confusão, não se atingindo desse modo o objetivo do discurso: a persuasão. Já as premissas não demonstradas, sobre as quais os interlocutores não estão de acordo, também não se prestam a esse fim, pois não são assentidas pela maioria. Desse modo, o objetivo desta comunicação é o de mostrar como Aristóteles resolve esse problema: sendo a Retórica comparada à Dialética, no que tange a ambas tratarem de questões do cotidiano, o filósofo trabalha o conceito de entimema, um silogismo que se compõe de poucas proposições, as quais são aceitas pela maioria das pessoas, facilitando a compreensão dos ouvintes.

 

4 - A presença do enthymema aristotélico na invenção do método científico de Thomas Hobbes. NAKAYAMA, Patricia (USP)

Apresentaremos uma reflexão acerca de um método desenvolvido no século XVII por Thomas Hobbes. Segundo historiadores da ciência, este método em muito definiu as regras das descrições científicas (que inclui as ciências humanas). Nosso trabalho pretende demonstrar como este método baseou-se em duas importantes ideias: a inventio latina e o enthymema aristotélico. Para demonstrar esta hipótese, tomaremos em especial a discussão desenvolvida em Physical Dialogue of the nature of the air de Hobbes. Neste diálogo há uma atenção especial para o modo pelo qual ocorre a descrição e a disseminação dos experimentos científicos desenvolvidos pela Royal Society, isto é, trata-se de uma análise crítica do discurso científico dos primeiros experimentos. Hobbes demonstra como são tendenciosos por não possuírem axiomas bem definidos, como a necessária definição dos nomes, em especial a definição de ar. É nesta indefinição que o experimento perde seu valor científico e impossibilita a disseminação do conhecimento.

 

 

Sessão de comunicação 5

 

1 - A retórica no Brasil: resgatando sua história. MENDES, Eliana Amarante de Mendonça (UFMG)

No contexto atual, em que se constata, em todo o mundo, um interesse renovado pela retórica, cabe resgatar a memória dessa antiga arte no Brasil, herança que nos foi legada por nossos colonizadores portugueses e que teve grande difusão, importância e influência no país. Pretendo, neste trabalho, apresentar um breve histórico da presença da retórica no Brasil, nos períodos compreendidos (i) entre a chegada dos jesuítas no país, em 1549, e a expulsão desses pela reforma pombalina em 1759; (ii) entre a saída dos jesuítas  e  a implantação da reforma positivista do ensino no país em 1891, considerada o marco “oficial” da morte da retórica, já que a  baniu dos nossos currículos; e (iii) o período posterior em que, embora formalmente extinta,  ainda sobreviveu (e sobrevive). Pretendo também mostrar, especialmente, como era o ensino da retórica no Brasil e sua relação com os demais estudos do vernáculo. A retórica, como se verá, teve importantes implicações não só no ensino da língua e da literatura vernáculas no Brasil, mas também, segundo alguns estudiosos, até mesmo na formação do caráter do povo brasileiro.

 

2 - Vieira, da página ao púlpito. PINTO, Rodrigo Gomes de Oliveira (USP)

Os sermões do jesuíta Antônio Vieira, tal como impressos de maneira sistemática a partir de 1679, foram por ele ideados e preparados para circulação escrita. Desse modo, na página, é prática de Vieira a dramatização da actio de pregação, não raro circunscrita à ocasião temporalmente distante da estampa dos sermões. Essa dramatização é artifício de escrita, verossímil e decoroso, como convém à obra oratória, e, assim, recurso que, com frequência, obnubila o hiato entre as datas de desempenho dos sermões no púlpito e as de sua publicação na editio princeps. Nos termos da retórica latina, a noção de ductus, doutrinariamente esmiuçada por retores como Marciano Capela e Fortunaciano, pode fornecer lição que ajuda a ler as acomodações construídas pelo jesuíta em sermões como os de Dominga de Quaresma, cujos efeitos produzem desvios discursivos por meio dos quais Vieira pode abordar o que não parece abordar, mirando leitor pressuposto a quem não parece se destinar.

 

3 - A representação retórica das paixões na sátira de Gregório de Matos. OLIVEIRA, Ana Lúcia M. de (UERJ/CNPq)

Pretende-se, neste trabalho, considerar a sátira atribuída a Gregório de Matos em termos de sua historicidade seiscentista, propondo-a segundo sua codificação retórica, política e teológica, para tentar reduzir o risco de anacronismo na análise desenvolvida. Examinaremos o emprego da convenção poética da persona satírica, ou seja, a máscara aplicada pelo poeta para figurar as duas espécies de cômico definidas por Aristóteles – o ridículo e a maledicência, ou o vício não nocivo, que provoca riso, e o vício nocivo, que causa dor. Segundo as convenções do gênero, conforme discutiremos, tal persona é vazia, configurando-se como uma espécie de ator móvel que pode investir diferentes vozes, modulando-se entre o divertimento irônico e a indignação, o riso leve e a crítica agressiva e contundente, que emprega o sarcasmo e uma linguagem obscena. A partir dessa perspectiva, o trabalho proposto buscará destacar o papel de relevo da retórica, uma presença constante na produção letrada do século XVII, nas sátiras do poeta baiano, tentando demonstrar a funcionalidade do uso de fórmulas de persuasão para a maior eficácia da crítica plasmada nos poemas.Em síntese, o ponto central da análise será a investigação não apenas da representação retórica das paixões encenadas pela persona satírica como também das diferentes estratégias empregadas nos poemas para excitar paixões nos ouvintes, de grande efeito persuasivo.

 

4 - Questões de estilo e economia das paixões em escritos políticos das Minas setecentistas. LUZ, Guilherme Amaral (UFU)

Partindo de exemplos contidos nos textos Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720, atribuído ao Conde de Assumar, e Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, busca-se, nesta comunicação, refletir a respeito dos efeitos de seus estilos na mobilização dos afetos implicados nos embates políticos das Minas no século XVIII. Pretende-se demonstrar que as questões de estilo, presentes tanto no gênero histórico quanto no satírico, respondiam não somente a motivações que chamaríamos hoje de estéticas (ou poéticas), mas a objetivos retórico-políticos inseparáveis daquela configuração histórica. Elas buscavam ensinar e estimular modos de sentir de personagens ajustados a determinados modelos de ethos diante de realidades políticas em relação às quais se buscava cativar os corações. Para isso, problematizaremos a sintaxe dos textos escolhidos no que ela sugere em termos de psicagogia, levando-nos tacitamente a compreender a retórica política daquele momento histórico conforme, de um lado, o repertório estilístico derivado das autoridades presentes na educação jesuítica e, do outro, o reavivamento da segunda sofística a partir do século XVIII.

 


Sessão de comunicação 6


1 - A construção da imagem feminina em obras de autoajuda: uma breve análise retórico-argumentativa.  FIGUEIREDO, Allana Mátar de (UFMG)

Nas últimas décadas, o crescimento dos estudos transdisciplinares da Análise do Discurso, especialmente no âmbito da argumentação, foi parte fundamental do resgate e revalorização da disciplina Retórica. Nessa perspectiva, partindo de uma análise retórico-argumentativa, procuraremos, neste trabalho, com base na releitura contemporânea do conceito de ethos grego, abordar a representação da imagem feminina em certas obras de autoajuda destinadas a esse público. Ocorpus em destaque será o best-seller Por que os homens se casam com as mulheres poderosas?, de Sherry Argov (2010). Tal trabalho constitui-se como um recorte de uma pesquisa de Mestrado em desenvolvimento acerca das estratégias argumentativas usadas na construção da figura feminina nessas obras. O que se propõe, inicialmente, é a associação pejorativa da mulher “não-poderosa” a características como passionalidade, fragilidade e destempero, opondo-a a representações masculinas associadas à racionalidade, ao equilíbrio e ao controle, com determinada visée argumentativa. Para tal análise, valeremo-nos, inicialmente, da releitura retórica por Meyer (2007), dos estudos argumentativos de Plantin (2008) e dos estudos sobre argumentação e construção de imagens de Ruth Amossy (2005 e 2010).

 

2 - Estereótipos e argumentação em uma campanha da Volkswagen alemã. AMOR DIVINO, Marcos Daniel do (UFMG)

Temos como objeto de estudo uma campanha publicitária intitulada de produzido pela Volkswagen, a qual é composta por quatro vídeos produzidos e divulgados na Alemanha no ano de 1997. O conteúdo dos quatro filmes publicitários é em grande parte constituído por imagens que podem ser entendidas como sendo resultado de visões estereotipadas da cultura alemã, muito embora tenham sido produzidas pelos próprios alemães. Elas seriam encenadas com o intuito de produzir efeitos de humor no auditório e contribuir para o jogo argumentativo que indicaria, inicialmente, de forma indireta, o reforço da qualidade que os automóveis da marca Volkswagen apresentariam. Assim, propomos, neste trabalho, conduzir uma análise do corpus selecionado com o objetivo de verificar como as provas retóricas (ethoslogos pathos) se configurariam em função de tal argumentação. Para viabilizar nosso trabalho, teremos como principais referências estudos de argumentação e de estereótipos, como os de Perelman (2005), Lima (2006), Toledo (2006), Meyer (2007) e Amossy (2010).

 

3 - A dimensão argumentativa no funcionamento do discurso de opinião adolescente. SOUZA, Luana (UFMG)

Compreender os modos de funcionamento do discurso de opinião adolescente é a nossa proposta com o desenvolvimento deste trabalho. Para tanto, consideramos ser imprescindível, seguindo as trilhas dos trabalhos de Amossy (2007, 2010), nos determos à dimensão argumentativa que esse discurso engendra na medida em que compreendemos que “a análise da argumentação é indissociável daquela do funcionamento de um discurso” (AMOSSY, 2007). A nossa discussão será subsidiada pela análise de excertos de textos da seção de opinião da revista Capricho, intitulada Tudo de blog. Essa seção se caracteriza por circular a opinião de adolescentes sobre determinados assuntos propostos pela revista. Nela, o sujeito enunciador pode expor suas idéias e, assim, mostrar-se para o outro. Esse é um espaço, na discursivização do feminino, atravessado pelo público e o privado, já que, de modo geral, ao emitir suas opiniões, as adolescentes recorrem aos acontecimentos de sua vida pessoal. A ancoragem do nosso trabalho se dá, sobretudo, nos trabalhos de Amossy (2007, 2010), bem como nos de Maingueneau (2005).

 

4 - Emoções e julgamento de valor. LIMA, Helcira (UFMG)

Ao considerar, nas trilhas de Meyer (2003), em sua releitura da retórica aristotélica, que as paixões marcam as diferenças entre os homens e também que elas se referem a julgamentos de valor, pretendemos apresentar uma reflexão sobre a emoção “vergonha”, tomando como ponto de partida elementos de um crime passional. Nosso objetivo é propor uma reflexão sobre as paixões/emoções de modo a aliar as contribuições da Filosofia e da Sociologia àquelas advindas da Análise do Discurso. Nesse percurso de leitura, partimos do pressuposto de que as emoções são aprendidas culturalmente. Por consequência, não são naturais. Elas são respostas ao modo como o outro nos vê e à maneira como vemos o outro, por isso estão ligadas às representações e às crenças. Além disso, enxergamos as emoções como relacionadas às normas sociais e, portanto, acreditamos que elas dizem respeito aos julgamentos que fazemos sobre o outro e sobre o que somos.

 

 

Sessão de comunicação 7

 

1 - Índices linguísticos e para-linguísticos da gestão da emoção e da projeção de ethos no discurso de Marina Silva, no programa JÔ 11/2. LESSA, Cláudio Humberto (UFMG)

Estudos têm mostrado como a mídia transformou profundamente a eloquência política: cf. Rubim (2000) e Courtine (2003). Passou-se a adotar uma retórica marcada por discursos e ideias simples, com um estilo dialogado e familiar. Estabeleceu-se uma psicologização do aparecer público: valorizam-se mais as imagens e os aspectos da vida privada dos atores políticos no processo eleitoral que suas ideias. As materialidades do discurso político marcam-se pelo agenciamento de fluxos contínuos de verbo, corpo e voz. O político passou a exercer um controle maior de suas elocuções, gestos, comportamentos e expressão de emoções para projetar um ethos de convicção. Além disso, a propaganda política é veiculada em uma diversidade de gêneros televisivos. Nessa comunicação, apresento o resultado de uma análise de uma entrevista concedida pela ex-ministra Marina Silva ao apresentador Jô Soares em seu talk show. Observo como aspectos situacionais e conjunturais dão lugar a uma interação na qual a entrevistada busca, por meio de recursos verbais e para-verbais, exercer um controle de suas emoções e construir seu discurso fundamentando-se mais em argumentos baseados no logos. Para analisar a diversidade plurissemiótica nesse discurso, opero com os conceitos de modalização e modulação abordados por Vion (1992; 2003).

 

2 - Imagens de si e emoções em uma entrevista com Guilherme de Pádua. REIS, Alcione Aparecida Roque (UFMG)

Aristóteles, em seu livro Retórica, caracteriza um conjunto de emoções (paixões) que seriam passíveis de sensibilizar o auditório e colocá-lo em uma disposição favorável ao orador e à sua tese. O orador deveria dar prova de sua credibilidade, da honestidade do seu caráter, projetando uma imagem favorável de si, um ethos. Essa imagem resultaria do seu discurso e não de sua reputação ou de sua história de vida na comunidade. Assim sendo, a persuasão e o convencimento resultariam de três tipos de provas relativas: i) ao logos, ao discurso em si, ao encadeamento dos argumentos e raciocínios (silogismos); ii) ao ethos, à imagem do falante, ao seu caráter, construída no e pelo discurso e iii) ao pathos, ao conjunto de meios utilizados pelo orador para despertar as emoções no auditório. É possível ao linguista, ou ao estudioso do discurso, analisar de que maneira os sujeitos, em determinada situação de interação, expressam signos passíveis de despertar/transmitir emoções; é possível, também, pensar em um conjunto de situações prototípicas nas quais determinadas emoções podem ocorrer, observar o que as causa, quem as sofre ou desperta, como, quando e onde, as normas ligadas aos rituais de expressão emocional. Nesse sentido, optamos por explicitar amise en scène estabelecida durante todo o processo que culminou com a entrevista de Guilherme de Pádua no programa do Ratinho, analisando os aspectos situacionais pré/durante a entrevista a fim de elucidar quais os papéis sociais dos sujeitos, os saberes e crenças partilhados entre eles, os seus objetivos comunicativos e retóricos. 

 

3 - A argumentação publicitária: o papel das emoções e da figuralidade retórica. SILVEIRA, Anna Carolina Araújo (UFMG)

Este trabalho tem como objetivo contribuir com posições teóricas que defendem a racionalidade das emoções, isto é, recolocam a emoção em um lugar fundamental na argumentação, tratando-a não como uma pulsão, uma sensação, mas sim como um efeito possível visado pelo discurso, dotado de racionalidade, na medida em que as emoções se manifestam sempre a propósito de algo. Tentaremos estabelecer um elo entre os estudos retóricos e da argumentação e os estudos das emoções e de sua racionalidade, buscando elementos para a análise do papel das emoções na negociação da distância entre os sujeitos acerca de uma questão. O objeto de estudo deste trabalho é o discurso publicitário, pois acreditamos que ele seja dotado de uma forte carga patêmica, não somente em função da necessidade de captação característica desse gênero discursivo, mas também pela validade das emoções como argumentos racionalizados, participantes do processo de desencadeamento de intensidades de adesão determinadas. Buscaremos, na materialidade discursiva das propagandas da Campanha publicitária da Bombril, “Mulheres Evoluídas”, elementos que sustentam a argumentação de emoções, com atenção especial às figuras retóricas, a fim de atestar o papel fundamental das mesmas para o sucesso pretendido pela campanha.

 

4 - Pathos, revolução e liberdade na Primavera Árabe. MENDES, Emília (UFMG)

Nosso objetivo é estudar como se deram algumas representações da liberdade como um efeito visado de emoção em fotos divulgadas pela imprensa retratando a Primavera Árabe durante o ano de 2011. O corpus de nossa pesquisa é composto por uma seleção de fotos veiculadas em três jornais: Folha de São Paulo (Brasil), Libération (França) e New York Times (Estados Unidos). Pensamos que a "emoção da liberdade" é algo que pode ser percebido, experienciado, mas não pode ser facilmente apreendido em categorias devido à variabilidade de configuração dos sentidos de "liberdade". A ideia de liberdade não se configura com um mesmo padrão de ocorrência, ela pode se manifestar em não importa qual cena, pode se manifestar em textos ou em imagens, elegendo os mais diversos processos de representação. Nossa hipótese é a de que, no caso em questão, esse efeito visado de emoção viria relacionado à ideia de revolução. Assim sendo, nossa proposta consiste em verificar de que maneira cada jornal construiu efeitos patêmicos relacionados à liberdade e à revolução. Considerando que os efeitos podem adquirir vieses culturais, é de nosso interesse analisar quais imaginários sociodiscursivos são invocados para que tais imagens tenham os referidos efeitos. O referencial teórico tem por base: Mendes (2011), Plantin (2011) e Charaudeau (2010).

 

 

 TERÇA FEIRA, dia 28, 16h30 às 18h30

 

Sessão de comunicação 8

 

1 - Dialogus de Oratoribus, ou o silenciar da eloquência no século I d.C. AVELLAR, Júlia Batista Castilho de (UFMG)

O presente trabalho objetiva investigar a situação da eloquência latina no século I d.C., com base na obra Dialogus de Oratoribus, atribuída a Tácito. Trata-se o texto de um diálogo entre quatro eminentes oradores da época (Aper, Maternus, Messala e Secundus), cujo eixo temático consiste na confrontação entre a eloquência dos antigos (dos tempos ciceronianos) e a dos modernos (século I d.C.). Nosso propósito é examinar os argumentos utilizados pelos personagens que defendem ter ocorrido um declínio da eloquência, de modo a avaliar a pertinência das causas alegadas como justificadoras de tal decadência. Dentre outras, são apontadas as condições políticas do Império, em que o absolutismo resultante do acúmulo do poder nas mãos de um governante único torna a eloquência e o debate praticamente desnecessários. Concomitantemente, ocorreram mudanças no processo de educação e formação do orador, de tal forma a limitar-se à realização de exercícios declamatórios fictícios, em detrimento da sedimentação de uma base de conhecimentos ampla e em áreas variadas. Pretende-se, por fim, verificar em que medida a oratória de Tácito guarda ressonâncias e aproximações, no que diz respeito aos gêneros do discurso, com a retórica aristotélica.

 

2 - A Arte Retórica em Agostinho de Hipona à luz do De Doctrina Christiana. BENTO, Emilson José (USP)

Esta comunicação trata dos preceitos retóricos no Livro IV da obra De Doctrina Christiana, de Agostinho de Hipona. Nele há um reexame da retórica clássica, na busca de um instrumento para a transmissão e defesa da religião cristã no ofício da pregação. É nosso objetivo evidenciar as características deste uso peculiar apresentado por Agostinho, eminente professor de retórica animado de fortes convicções ciceronianas. Diferente da Antiguidade, que entendia a eloquência estreitamente ligada à arte retórica, Agostinho entende que esta questão deve ser tratada em conexão com algumas orientações da filosofia moral e da teologia cristãs, situadas para além da técnica.  Dando maior importância à Bíblia cristã, à sabedoria e à moral dos autores bíblicos, Agostinho traz novos significados para o termo ‘eloquência’. Além disso, o aprendizado oratório, que se alicerçava nas doutrinas e nos hábitos transmitidos pelos oradores antigos, é dessa vez resumido e transmitido por Agostinho segundo um método radical de imitação, cujos modelos passam a ser os escritores bíblicos e eclesiásticos, aqueles inspirados por Deus e gratificados com a união da eloquência à sabedoria. Instaura-se assim, a submissão da eloquência à sabedoria, num esforço de buscar o sentido espiritual das Escrituras, o que faz surgir uma ‘eloquência cristã’.

 

3 - O discurso retórico na epopeia bíblica de Arátor. MANSO, José Henrique Rodrigues (Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra/Universidade da Beira Interior - Covilhã, Portugal)

No ano 544, o poeta latino Arátor apresentou e dedicou ao papa Vigílio a História apostólica, epopeia bíblica baseada nos Atos dos apóstolos, composta em hexâmetros dactílicos e centrada nos heróis cristãos Pedro e Paulo. Ainda que a sua principal fonte de inspiração continue a ser a epopeia clássica, os protagonistas são delineados de forma bem diferente, quer em termos discursivos quer actanciais. Arátor almeja reconstruir em verso os Atos dos apóstolos, mas não hesita em afastar-se da narrativa lucana, por omissão ou amplificação, para dar todo o protagonismo às figuras centrais da epopeia, Pedro e Paulo, as únicas com direito a discursos diretos relevantes. A atitude prosélita destas personagens bíblicas implicou o uso exímio da retórica, enquanto teknê e arte persuasiva, pois urgia convencer as mentes à fé cristã, um mouere que implicava o discurso argumentativo. Deste modo, se, por um lado, a História apostólica imita a epopeia antiga, sobretudo a Eneida, por outro lado, a estrutura e finalidades do discurso retórico são igualmente importantes para compreendermos os meandros da construção dos discursos argumentativos no poema, particularmente os de Paulo, a personagem mais proeminente. Cotejaremos, para tal, as pregações paulinas em Arátor e nos Atos dos apóstolos.

 

4 - Retórica e poesia: considerações sobre a concepção “romana” de gênero poético no século I a.C. SOUSA, Francisco Edi de Oliveira (UFC)

Este trabalho examina o papel da retórica na concepção dos gêneros poéticos na Antiguidade greco-latina e questiona a compreensão que se tem de tal concepção, especialmente no universo romano do século I a.C. O desenvolvimento da teoria retórica dos estilos grauis, mediocris e tenuis no período helenístico exerceu grande influência sobre a caracterização dos gêneros poéticos; em decorrência, em geral se reconhece uma relação entre gênero poético e estilo retórico: por exemplo, a poesia épica seria vertida em estilo elevado, a didática em estilo médio, a elegíaca em estilo tênue. Todavia essa relação é problemática e precisa ser reavaliada: de um lado, ainda há dúvidas sobre o entendimento greco-latino de gênero poético; de outro, uma variação de estilo pode acontecer no seio de um mesmo gênero, como o lírico. Então, para autores como Virgílio, Horácio, Ovídio, o que seria um “gênero” poético e como a teoria retórica dos estilos atuaria nesse domínio? Propõe-se aqui uma reavaliação da ideia de gênero poético, em especial para os poetas latinos do século I a.C., com base nas noções de ritmo, matéria e estilo retórico.

 

 

Sessão de comunicação 9

 

1 - O diálogo entre Zeus e Hera em Ilíada, I, 545-550. LOPES, Antonio Orlando O. Dourado (UFMG)

Quando Hera percebe de longe o meneio com que Zeus acede ao pedido de Tétis para que favoreça Aquiles, inquire ao deus acerca das razões do seu gesto. Negando-lhe uma explicação, Zeus afirma que ela não deve esperar conhecer todos os seus propósitos, já que eles são khalepoí (Ilíada, I, 545-550, em particular 546). Proponho neste estudo considerar o sentido dessa afirmação de Zeus levando em conta os seguintes fatores: (a) a relação conjugal entre Zeus e Hera; (b) o contexto do diálogo, que sugere que a resposta de Zeus pretende desviar a atenção de sua esposa dos planos da derrota provisória dos aqueus; (c) os adjetivos que qualificam normalmente as palavras em Homero, ressaltando a agressividade (antíbios, ékpaglos, thymalgés e leugáleos) ou um de seus aspectos particulares, como o ódio (stygerós),o caráter humilhante (aiskhrós e oneídeos), a astúcia (dólios), o desprezo (kertómios) ou o transtorno com que são proferidas (atarterós e kholotós); esse conjunto de adjetivos se opõe àqueles que exprimem a doçura da fala (malakóse meilíkhios); (d) a noção de uma linguagem divina, diferente da humana, que pode sugerir também a superioridade das palavras de Zeus em contraste com as dos demais deuses.

 

2 - A refutação de Telêmaco a Penélope no canto 1 da Odisséia (345-359). ASSUNÇÃO, Teodoro Rennó (UFMG)

Breve estudo – a partir do contexto criado pela aparição de Atena (Mentes) no palácio de Ítaca – das intenções possíveis de Telêmaco em sua refutação do pedido de sua mãe ao aedo Fêmio para cessar o seu “canto lúgubre” (aoidês lugrês, Od. I, 340-341), cujo assunto (Akhaiôn nóston lugrón, “o retorno lúgubre dos Aqueus”, Od. I, 326-327) desgasta o coração dela com “uma dor não-esquecível”, fazendo-a sentir saudades e se lembrar de Odisseu (cf. Od. I, 340-345). Telêmaco, como se acreditando na veracidade do canto de Fêmio, atribui a Zeus a responsabilidade pelo “destino ruim dos Dânaos” (Od. I, 347-350) e diz a Penélope que “Odisseu não é o único que perdeu o dia do retorno em Tróia” (Od. I, 354-355), sugerindo (o que o narrador da Odisséia não explicita) que o canto de Fêmio contivesse em seu repertório também a morte de Odisseu em seu retorno não-realizado, versão que a Odisséia desmente, mas que obviamente parece agradar à maioria dos auditores em Ítaca, ou seja: os pretendentes, para quem – segundo o narrador daOdisséia – Fêmio canta “sob constrição” (anágkei, Od. I, 154). Mas qual seria o interesse de Telêmaco em uma tal versão?

 

3 - A noção de decoro em quatro traduções em língua portuguesa do Como se deve escrever a história, de Luciano de Samósata. SINKEVISQUE, Eduardo (IFCH/UFRGS)

No Como se deve escrever a história, de Luciano de Samósata (séc. II d. C.), a noção de decoro(prepon ou decorum) é forte, sendo mobilizada inúmeras vezes tanto quando o narrador da carta-tratado critica maus historiadores, quanto quando aconselha a perfeita escrita da história. Ocorre que no texto traduzido por Jacyntho Lins Brandão (2009), a categoria decoro não se encontra presente de modo explícito. Por outro lado, nas três traduções portuguesas do século XVIII do Como se deve escrever a história, de Frei Jacinto de São Miguel (1733), Frei Manoel de Santo Antônio (1733) e do Padre Custódio José de Oliveira (1771), termos como decoro, indecoroso, indecorosamente são explicitados no texto. A comunicação discute as passagens mais relevantes sobre decoro no texto de Luciano em suas diferenças de tradução em língua portuguesa, cuja finalidade é erigir hipótese sobre essas diferenças de usos de Luciano e sobre o uso da noção de decoro no gênero histórico setecentista.

 

4 - Lições de Plutarco sobre a comédia grega. LAGES, Luciene (UFBA),

Essa comunicação pretende apresentar uma interpretação da comparação entre os dois comediógrafos gregos Aristófanes e Menandro feita por Plutarco nas "Obras Morais". Para o primeiro, são reservadas sérias críticas sobre o seu estilo considerado grosseiro e vulgar, para o segundo, elogios que destacam um estilo elegante e coeso. O caráter elogioso de Plutarco para Menandro pode ser entendido como um reflexo do peso que este autor ganhou ao longo dos séculos III a I a.C. Visto que, por um lado, foi referência para autores de comédia latina como Plauto e Terêncio; por outro lado, exemplo de autor que deveria ser seguido a fim de se alcançar excelência como orador, tal pensamento é expresso por Quintiliano e Cícero, entre outros. A epítome da comparação entre o representante da comédia antiga versus comédia nova é o primeiro texto que se dedica ao assunto e evidencia pequenas regras sobre o bom ou mau pintor de caracteres, sobre a escolha adequada do vocabulário e, por fim, a habilidade de se agradar um público tanto sofisticado quanto vulgar.

 

 

Sessão de comunicação 10

 

1 - De Aristóteles a Perelman: dos deslocamentos de sentidos da retórica. MASSMANN, Débora (Univás)

Ao situar sua proposta teórica no domínio do verossímil, a obra de Perelman e Olbrechts-Tyteca retoma os postulados aristotélicos revitalizando a noção de retórica. A fim de compreender semanticamente o deslizamento da palavra retórica para a expressão nova retórica, proponho-me, neste trabalho, a analisar o(s) funcionamento(s) e a(s) rupturas de sentido(s) da palavra retórica em Aristóteles (s/d) e em Perelman (1958). A partir dos postulados teóricos da Semântica do Acontecimento (Guimarães, 2002), compreendo que a cada acontecimento enunciativo, as palavras, a partir de seu funcionamento político e histórico, podem assumir novos sentidos. Assim, para descrever o sentido da palavra retórica, investigo as condições sócio-históricas e ideológicas em que o acontecimento enunciativo foi produzido. Acontecimento este que se caracteriza pelo funcionamento da língua em dizeres específicos sobre retórica na obra destes autores. Este processo de produção de sentidos mobiliza procedimentos enunciativos distintos (reescrituração e articulação) que resignificam o que já foi dito. Observando estes procedimentos enunciativos, chega-se ao Domínio Semântico de Determinação (DSD) (Guimarães, 2007) da palavra retórica. Através deste estudo, pretende-se contribuir para a produção de um saber sobre a história da nova retórica nas ciências humanas num período muito específico: a segunda metade do século XX.

 

2 - Retórica, justiça e gênero judiciário em Aristóteles. LACERDA, Bruno Amaro (UFJF)

Em Aristóteles, a retórica tem por função reconhecer os meios de persuasão mais pertinentes para cada situação, no intuito de levar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa por meio da imposição de uma crença firme percebida como verossímil. Um dos gêneros da retórica é o judiciário, que se dirige aos juízes de um tribunal visando persuadi-los sobre a justiça ou a injustiça de um comportamento. Segundo Aristóteles, este gênero relaciona-se com a acusação e a defesa a respeito de fatos que ocorreram no passado. A partir disso, deseja-se mostrar nesta comunicação que a justiça é uma noção que exige uma reconstituição fática por meio de razões potencialmente capazes de persuadir os juízes a decidirem de uma determinada maneira. Justiça, portanto, não é uma ideia pré-concebida ou determinada com antecedência à sua discussão argumentativa no caso concreto, mas o resultado de uma decisão que toma partido de um esquema discursivo considerado persuasivamente mais forte em uma determinada circunstância. Esta interpretação do gênero judiciário está em consonância com o conceito aristotélico de equidade ou justiça concreta.

 

3 - Categorias aristotélicas: articulações retóricas. FOCAS, Júnia Diniz (UFMG)

 

As categorias de Aristóteles, genericamente denominadas como “tópicos”, são ainda objetos de muitas controvérsias entre lógicos, filósofos e linguistas, já que se admite serem elas uma predicação que prevê os tipos de relações lógicas que definem o que é uma certa ideia, exprimindo assim uma racionalidade dialética e retórica. Aqui, discutiremos a fundamentação das categorias como formas de expressão, sendo essa condição que determina uma argumentação dialética consistente e que desvela a essência da linguagem. Nesse aspecto, as categorias aristotélicas expressam uma transcendência da linguagem humana, no sentido de que há uma ultrapassagem da simples significação para o entendimento das coisas em si mesmas ou que a verdade das proposições encontra-se no discurso e nos sujeitos. A questão não é por si só suficiente para estabelecermos uma argumentação possível, mas sim de conceber as suas potencialidades na lógica da argumentação. Assim, a constituição dos sentidos está definida pela categorização que se deseja estabelecer ao defender um ponto de vista retórico ou dialético. Benveniste (1976) afirma que, muito além da estruturação do pensamento, as categorias representam o lugar das relações linguísticas, ou seja, uma categoria da língua, premissa que consiste em sua própria condição de existência.

 

4 - A reinterpretação e a ampliação do ethos aristotélico pela análise do discurso. PEIXOTO, Thiago Fernandes (UFMG)

O conceito de ethos é hoje algo que perpassa todo discurso, tenha ele finalidades persuasivas ou não. Tanto o conceito quanto o termo ethos foram retomados pelos analistas do discurso há pouco tempo e logo foram acoplados às mais diversas teorias discursivas. Tal importância dada a ele nos faz buscar as origens do conceito para depois vermos suas diversas e recentes teorizações. Sendo assim, apresentamos neste trabalho um estudo do resgate feito pela análise do discurso do conceito aristotélico de ethos. Para isso, retomamos a concepção que dele é mostrada na Ética a Nicômaco e na Retórica, de Aristóteles, para, posteriormente, apresentar como foi feito o resgate desse conceito e desse termo por Maingueneau, Charaudeau e Amossy. Veremos como, cada qual ao seu modo, esses pesquisadores se desvinculam da noção, da forma como é apresentada pelo filósofo grego, e apresentam seu próprio modo de ver o ethos. Nesse intuito, examinaremos obras teóricas e aplicações que dele tem sido feitas por tais pesquisadores.

 

 

Sessão de comunicação 11

 

1 - Dialética e retórica na filosofia de Kierkegaard: uma filosofia retórica, ou uma retórica filosófica? SILVA, Marcos Érico de Araújo (UFPB-UFPE-UFRN)

Na tradição filosófica houve, desde a filosofia platônica, uma clara cisão entre dialética (filosofia) e retórica que estigmatizou os destinos da retórica no pensamento ocidental. Essa cisão, ruptura, desprovendo a retórica de racionalidade, foi alargando-se e intensificando-se na modernidade pela decisão por um modo de racionalidade que se acreditou único, a saber: a apodítica. Esse modo de racionalidade não possibilitava espaço para a retórica que foi tomada como irracional, ou pelo menos como um discurso que não contribuía para a ciência limitando-se a um floreamento do discurso. Na contemporaneidade há, entretanto, uma tentativa de reconciliação da filosofia com a retórica, revalorizando-a. No presente trabalho iremos mostrar como no pensamento de Kierkegaard a retórica está a serviço da dialética possibilitando instaurar uma crítica radical à tradição filosófica. É precisamente do entrelaçamento de dialética e retórica que resulta a filosofia kierkegaardiana forjando e inaugurando um novo modo de fazer filosofia na contemporaneidade. O método da comunicação indireta, isto é, a utilização de pseudônimos, no corpus kierkegaardiana, não é outra coisa que a forma (retórica) que comunica criticamente o conteúdo (dialética) da filosofia.

 

2 - Sobre verdade e retórica na filosofia de Nietzsche. SILVA, Carine Rodrigues Correia (UFBA)

Trata-se de analisar a relação existente entre os conceitos de verdade e retórica na filosofia do jovem Nietzsche. A partir de suas anotações de cursos sobre a retórica na antiguidade e seu ensaio inacabado Verdade e mentira no sentido extramoral, verificaremos como a linguagem, considerada naturalmente figurativa, é apresentada como a ferramenta humana incapaz de atingir a verdade. Para o filósofo, “somente por esquecimento pode o homem alguma vez chegar a supor que possui a ‘verdade’”, pois esta nada mais é do que “um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos”, ou seja, uma mera ilusão. Deste modo, podemos dizer que o caráterproblematizador da verdade suscitado por Nietzsche propõe um combate à concepção moderna de retórica e ao aniquilamento dos absolutismos. Seu discurso denuncia ainda a exacerbação do objetivismo que vigorou entre os pensadores que lhe foram contemporâneos. Nesta tarefa, deve-se considerar como finalidade da atividade discursiva a persuasão, além de lembrar o valor que é dado pelo filósofo alemão à naturalidade constitutiva do discurso oral dos gregos antigos. Diante disto, a partir de uma reflexão sobre o significado da doxa, nota-se o quanto a questão da retórica mantém um vínculo necessário com os temas da linguagem e da verdade.

 

3 - Nietzsche e a linguagem como retórica. BARBOSA, Rodrigo Francisco (PUCPR)

Em nenhum outro período do pensamento de Friedrich Nietzsche ocorre um enfrentamento sistemático do “estatuto da linguagem” como no período entre 1869 a 1877. Nessa época, Nietzsche trabalhava na elaboração de seus cursos na função de professor de Filologia Clássica e, em uma dessas preleções (o “Curso sobre retórica Antiga”), temos uma espécie de “esboço” de um esforço experimental de Nietzsche na tentativa de “resolução” desta problemática com a linguagem. A Retórica tem, aí, uma fundamental importância que faz com que alguns interpretes compreendam essa “retomada da Retórica” como uma “tour retorique” no pensamento de Nietzsche. Assim, no intuito de investigar tal retomada e deste modo, compreender a instrumentalização discursiva da Retórica na obra de Nietzsche, o presente trabalho orienta-se no âmbito de compreender o estatuto da “retomada da retórica” no texto nietzscheano na medida em que, conforme veremos, ela pode ser assimilada numa dupla acepção: por um lado como “crítica completa e radical da linguagem” e, por outro, como “ênfase na materialidade” da linguagem que sob a forma de “sedução e deslocamento” argumentativo, produz efeito no mundo.

 

4 - A retórica na hermenêutica de Hans-Georg Gadamer. WU, Roberto (UFSC)

Hans-Georg Gadamer enfatizou em diversas ocasiões o aspecto prático da hermenêutica filosófica, na medida em que esta se distingue de uma mera metodologia auxiliar na compreensão dos textos e passa a designar o projeto de sentido que caracteriza a própria existência humana. Essa passagem da hermenêutica metodológica para a filosófica traz implicitamente uma reinterpretação do significado da retórica, não mais concebida como uma arte que se preocupa prioritariamente com o estilo da fala, mas com a tarefa fenomenológica de fazer a compreensibilidade se mostrar na palavra. Nessa perspectiva, propõe-se a análise do pensamento de Gadamer a partir de três pontos principais, a partir dos quais ele estabelece uma conversação com a tradição que se ocupou com a retórica: a) a interpretação de Heidegger da retórica como “arte do ouvir” e não mais como “arte do falar”; b) a relação entre a noção de sensus communis defendida por Vico com a tarefa de uma reabilitação da tradição humanista; c) a conexão entre a retórica, enquanto descrição da coexistência humana, e a ética, enquanto a descrição do agir humano, tais como aparecem nas obras de Aristóteles.

 

 

Sessão de comunicação 12

 

1 - Polêmica e conciliação como figuras retóricas: o debate político em Esaú e Jacó. SENA, Tatiana (UFMG)

Na política do século XIX, polêmica e conciliação funcionaram como figuras retóricas marcantes. No romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, essas categorias aparecem tematizadas através da discórdia dos gêmeos Pedro e Paulo, que assumem sistematicamente, ao longo do enredo, posturas políticas antagônicas. Todavia, outras personagens tentam apaziguar o conflito, produzindo estratégias de conciliação. O conselheiro Aires, Natividade e Flora funcionam como contrapontos argumentativos, objetivando deslocar as polêmicas instauradas pelos irmãos em contenda. A pesquisa analisou a polêmica como “uma figura parasitária da discussão” (FOUCAULT, 2010, p. 226), cujas formas modelares de constituição foram elaboradas especificamente nos âmbitos religioso, jurídico e político. Também foi discutido como a imagem da conciliação no romance pode ser lida como uma alusão aos debates políticos em torno do estratégico Gabinete de Conciliação. Os capítulos “Fusão, difusão, confusão” e “Transfusão, enfim” estabelecem ironicamente uma intertextualidade com o título do importante e controverso panfleto político Ação; Reação; Transação. Duas palavras acerca da Atualidade Política do Brasil, do jornalista e deputado Justiniano José da Rocha. O debate entre os irmãos Pedro e Paulo pode ser indicativo da formação de duas tendências políticas heterogêneas entre si, marcadas por atritos e tensões, mas também por ajustes e combinações.

 

2 - Estratégias persuasivas para levar Machado de Assis à Itália. PALMA, Anna (UFMG)

Esta comunicação utiliza os resultados da análise dos para-textos das traduções em italiano de romances e contos de Machado de Assis, no âmbito da reconstrução de um provável discurso biográfico, pelo qual Machado de Assis é projetado na cultura literária italiana, desde a primeira tradução, feita por Mario da Silva, Memorie postume di Braz Cuba (1928), até a última, publicada, em 2011. A pesquisa busca mostrar: a) como os textos que acompanham as traduções de autores de obras literárias são relevantes para a recepção de uma tradução e, consequentemente, para o ingresso de obras e autores no sistema literário de outras culturas; b) as estratégias retóricas usadas para a construção de tais textos. Entre esses, as bio-bibliografias constituem o primeiro passo durante a reconstrução da imagem e do ethos e um autor, como é o caso de Machado de Assis, longe no tempo e no espaço da realidade do leitor italiano dos séculos XX e XXI. A esses resultados, que ressaltam os principais dados sobre o autor e seus romances e contos publicados na Itália, somam-se as informações sobre o escritor brasileiro em enciclopédias, histórias literárias e agregadas às últimas obras machadianas traduzidas nos últimos dois anos. As biografias assumem, partindo desse olhar, uma função de introdução da literatura estrangeira e, por sua vez, podem influenciar, por meio de determinadas estratégias persuasivas, as leituras críticas das obras traduzidas em uma cultura e, portanto, sua recepção e interpretação.

 

3 - Guimarães Rosa e a Retórica. MATOS, Maria Aparecida Damasceno Netto de (FASAR - Conselheiro Lafaiete)

Pretendo, neste trabalho, apresentar os resultados de pesquisa que venho desenvolvendo sobre a linguagem oral-escrita de Guimarães Rosa, analisando retoricamente os contos Primeiras Estórias e a novela O Recado do Morro. É nosso objetivo mostrar, a despeito do descaso com que têm sido tratadas as figuras retóricas por parte dos especialistas em estudos literários, que elas constituem uma rica ferramenta para a análise de textos literários. No caso específico da literatura roseana, cuja linguagem é considerada estranha e singular, constata-se que grande parte dos recursos linguísticos utilizados por Rosa, considerados inovadores, já se encontram há muito arrolados dentre as figuras retóricas. Pretendo também mostrar que, além da grande presença de figuras de dicção, as de pensamento e os tropos vinculados à elocutio, elencadas pelos retóricos antigos, identificam-se também, na linguagem roseana, expressiva presença de traços da inuentio retórica, expressos pelo uso de argumentos retóricos, além de outros processos que guardam estreita relação com os ensinamentos dos clássicos.

 

4 - O uso de Figuras de Retórica como estratégia argumentativa na literatura de cordel. MENDES, Simone (UFOP)

A literatura de cordel brasileira, por sua origem pautada na oralidade, sempre esteve à margem dos estudos literários e mesmo das instituições que legitimam autores e clássicos, fato que rendeu anos de descaso e abandono dessa literatura por parte do universo acadêmico. No entanto, ao observarmos a imensa variedade temática desse universo literário, nos deparamos não só com verdadeiras preciosidades do ponto de vista estético, mas também textos que refletem um forte posicionamento argumentativo e engajado por parte do poeta. Com base nisso, pretendemos desenvolver uma reflexão sobre as estratégias argumentativas utilizadas em poemas cujo conteúdo foi inspirado em notícias publicadas pelas mídias de informação. Dentre essas estratégias, privilegiaremos a presença, na materialidade linguística, de figuras retóricas, às quais, segundo Amossy (2006, p. 208), “colocam o leitor face a um universo que suscita às vezes a emoção e a reflexão”, deixando de ser apenas um simples ornamento estilístico e passando a contribuir com o projeto argumentativo do poeta.

 

 

Sessão de comunicação 13

 

1 - O Mercosul na visão retórico-discursiva dos editoriais dos jornais Gazeta do Iguaçu(BR) e Vanguardia (PY). NETO, Carmen Aparecida Nunes (UNIOESTE)

Dentre os diferentes domínios ou discursos pelos quais a retórica se interessou na contemporaneidade, inclui-se o jornalístico, por ser uma atividade dirigida a um público diversificado, objetivando atender à necessidade social de informação dos habitantes das cidades. Sua natureza assumiu, desde o nascimento, uma característica social, inserindo-se aos poucos no sistema mercadológico como produto de consumo. Considerando que o Editorial é o texto que expressa a opinião de um jornal, o presente estudo analisa as teses e respectivos argumentos desse gênero nos jornais Gazeta do Iguaçu e Vanguardia publicados em Foz do Iguaçu (BR) e Ciudad del Este (PY) respectivamente.  Objetiva perceber e compreender em que medida a integração prevista no Mercosul estaria ocorrendo, segundo o posicionamento político - a favor ou contra - de cada um dos Editoriais. São examinados, para isso, os argumentos técnicos e sensibilizadores com base nos pressupostos teórico-metodológicos da Teoria Retórica do Discurso – TRD de Dittrich (2008), apoiada na Teoria da Argumentação de Perelman-Tyteca (1958).

 

2 - Brasil e Paraguai: duas visões sobre a integração durante a 42ª Cúpula de chefes de estado do Mercosul e Estados Associados. GALLI, Cassiano Ricardo (UNIOESTE)

A análise está voltada para dois discursos proferidos por chefes de estados de países pertencentes ao Mercosul, Dilma Rousseff e Fernando Lugo, representantes de Brasil e Paraguai, respectivamente, durante a 42ª Cúpula de chefes de estado do Mercosul e Estados Associados em 29/12/2011. Os dois discursos foram escolhidos por terem sido proferidos durante o mesmo dia, de mesmos temas a serem discutidos e de mesma platéia, composta por outros chefes de estados e representantes dos países associados, bem como por serem expressos por chefes de estados de dimensões territoriais, políticas externas e economias contrastantes. As falas do presidente paraguaio e da presidenta brasileira serão analisadas com o intuito de extrair a noção de integração que cada chefe de estado pretende em relação ao Mercosul em diferentes aspectos possíveis. O trabalho será norteado pela teoria retórica do discurso de Diitrich, procurando investigar, através das diferentes dimensões argumentativas (são elas a racionalizadora, a estética e a política), as formas de integração desejadas pelos chefes desses dois estados membros do Mercosul.

 

3 - O discurso dos presidentes dos países da Tríplice Fronteira sob o olhar da Retórica. TATEISHI, Adriana Akemi (UNIOESTE)

Na cidade brasileira de Foz do Iguaçu, região da chamada Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, reuniram-se em 17 de dezembro de 2010 os presidentes desses três países, juntamente com o presidente uruguaio e outros chefes de Estado convidados, para a 40a. Cúpula do MERCOSUL. Nesse contexto, encontram-se nossos objetos de estudo, que são os discursos proferidos pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, pela presidente argentina Cristina Kirchner e por Fernando Lugo, presidente paraguaio. A região da Tríplice Fronteira pode ser muito significativa para a observação do desenvolvimento do MERCOSUL e do cumprimento dos acordos assinados entre os países integrantes do bloco, pois muitos deles refletem-se no cotidiano dessa região tão peculiar. Nos três discursos, a temática de desenvolvimento e integração está presente, assim como alcances e desafios futuros com relação ao MERCOSUL também fazem parte do teor discursivo. Nosso objetivo é, portanto, identificar e analisar as estratégias retóricas presentes em cada um desses discursos, confrontando-os em seus afastamentos e em suas semelhanças frente às perspectivas e avaliações do MERCOSUL. Nossa busca se fará por expressões e enunciados que nos possibilitem, por fim, construir a retórica discursiva de cada presidente.

 

4 - O discurso de Simon Bolívar: estratégias retóricas. DITTRICH, Ivo José (UNIOESTE)

A investigação recai sobre dois discursos de Simon Bolívar, do século XIX, pronunciados no contexto de independência das colônias espanholas americanas: Instalação do Congresso de Angostura (1819) e Congresso Constituinte da Bolívia (1826). Ambos são proferidos em circunstâncias de implantação da Constituição em Repúblicas nascentes que, agora, precisavam reger seu próprio destino. Bolívar, reconhecido e festejado como Libertador, precisa desencadear esta segunda etapa no processo de libertação dos povos americanos, até então organizados como colônias submetidas ao domínio da Espanha. Amparado em ideias próprias ou tomando como referência constituições de países democráticos, apresenta aos congressistas de cada República uma proposta de Constituição que assegure direitos de igualdade e liberdade. Recorre, em seu discurso, a diversas estratégias retóricas para justificar ou ilustrar o exercício do poder e o equilíbrio entre suas diferentes instâncias. Assim, o presente estudo pretende analisá-las na interface da Retórica com a História e a Política, buscando uma possível caracterização da retórica bolivariana.

 

 

Sessão de comunicação 14

 

1 - Retórica e ensino da produção de texto. MAGALHÃES, Mônica Moreira de (UFMG)

Este trabalho objetiva apresentar e discutir alguns elementos da Pedagogia Retórica que permitem ao aprendiz da produção textual desenvolver a sua habilidade retórica. Muitos podem apresentar certa capacidade natural para fala ou escrever, mas acredita-se que a teoria retórica, aliada à prática instrucional, em muito pode contribuir para desenvolver a competências dos estudantes. Nessa pedagogia, as atividades retóricas iniciam-se com a análise de textos-modelo criteriosamente selecionados, a partir dos quais são feitos exercícios de imitação, e culminam com a gênese propriamente dita, isto é, a produção textual autônoma. Dentre os elementos pedagógicos que integram esse percurso, abordaremos, mais especificamente, os progymnásmata, um conjunto de quatorze exercícios preliminares para se ensinar a produzir textos. São eles: Fábula, Narração, Anedota, Provérbio, Refutação, Confirmação, Lugar-comum, Encômio, Vituperação, Comparação, Personificação, Descrição, Tese ou tema e Defesa de (ou ataque a) uma lei. Esses exercícios apresentam uma complexidade gradual, partindo-se de habilidades mais simples: de imitação, variação e amplificação até as mais avançadas: de invenção.

 

2 - Possibilidades dialógicas entre a concepção bakhtiniana do discurso e a retórica aristotélica. PISTORI, Maria Helena Cruz (PUC/SP)

Este trabalho busca, no discurso de uma página do jornal Folha de S. Paulo, primeiramente, a compreensão de um possível monologismo no “jornalismo e seus gêneros como retórica moderna”; e, em segundo lugar, sua entonação valorativa, assumindo, conforme ensinamentos retóricos e bakhtinianos, que a forma “deve ser uma avaliação convincente do conteúdo”. Como fundamentação teórica, o trabalho propõe o diálogo entre a antiga retórica aristotélica e a concepção de discurso tal como desenvolvida pelos membros do Círculo de Bakhtin, partindo da constatação de que a primeira ressoa na obra bakhtiniana em diferentes pontos e de diferentes maneiras: explícita ou implicitamente, com uma apreciação valorativa mais ou menos positiva. Por exemplo, Bakhtin considera o enriquecimento que a retórica pode proporcionar à análise da transmissão da palavra do outro; o monologismo das formas composicionais retóricas, “ajustadas no ouvinte e na sua resposta”; desenvolve a noção de compreensão responsivo-ativa para todo discurso; e amplia a concepção “retórica” de valores a qualquer gênero discursivo – a entonação apreciativa. Teoricamente, ainda observamos a correlação entre o “enunciado concreto” e a actio, conforme leitura de Bialostosky. A análise e o esclarecimento dessas relações visam contribuir para uma compreensão mais efetiva do texto argumentativo.

 

3 - Consubstancialidade na campanha presidencial de Lula e Dilma. ORTEGA, Milene Ribeiro (University of Nevada, Las Vegas)

A retórica na política presidencial brasileira passa por constantes reavaliações e, nesse processo, observa-se a criação de diferentes estratégias linguísticas. O ingresso de Luiz Inácio Lula da Silva na política presidencial brasileira permite que estudiosos da retórica desenvolvam interface com o conceito de consubstantialiy – desenvolvido por Kenneth Burke. Essa leitura permite que a língua política seja interpretada por um novo viés: um viés que percebe o preconceito linguístico como uma estratégia retórica para desenvolver a identificação que (de fato) interpele o eleitor. Este trabalho tem por objetivo identificar estratégias linguísticas presidenciais que desvelam a teoria de Kenneth Burke da consubstancialidade. Para demonstrar tais estratégias, este trabalho analisou vídeos das campanhas presidenciais de Lula e Dilma Rousseff. Como resultado, observou-se que a língua política brasileira, forçosamente, extrapolou o preconceito linguístico com o intuito de atingir as diferentes esferas sociais; uma estratégia tão absolutamente bem implementada que permitiu a eleição dos presidentes mencionados.

 

4 - Marketing político e suas relações com a retórica. MOSCA, Lineide Salvador (USP)

Campanhas políticas constituem sempre uma guerra: guerra de palavras, de imagens, de comportamentos. Assiste-se ao espetáculo numa verdadeira arena em que os discursos se digladiam e devem, ao mesmo tempo, ser sedutores, aproximando uns e distanciando outros. O presente estudo examinará o que se tem produzido como regime de visibilidade, de imagem do poder, enquanto representações projetadas na mente e sensibilidade do virtual eleitor. O binômio inicial será marcado pela junção da racionalidade e da emoção e as polarizações que se efetuam nesses domínios, com predomínios alternados, segundo os diferentes atores políticos que entram em cena. A seguir, questões ligadas à projeção de estereótipos, de clichês que circulam na coletividade são avaliadas em seu potencial retórico de persuasão, por estarem ligados à doxa, como ponto de partida, e aos anseios, demandas e expectativas do público-alvo, como ponto de chegada. Serão apresentadas as principais estratégias retórico-discursivas que tecem a guerra simbólica da disputa eleitoral, em que confluem argumentos de diversas ordens, construídos na linguagem midiática verbo-visual e nas cenas do cotidiano. Debates das eleições presidenciais de 2010 darão acesso a essas considerações, assim como imagens veiculadas na mídia. O estudo deverá trazer contribuições da retórica para a área de marketing político, que se apoia fundamentalmente na eficácia dos resultados. O enfoque será interdisciplinar, percorrendo conceitos das Ciências Políticas, da Informação e das Novas Retóricas, a partir da herança retórica do passado.

 

 

QUARTA FEIRA, dia 29, 14h00 às 16h00

 

Sessão de comunicação 15

 

1 - O acordo como ponto de partida para os currículos escolares: uma contribuição possível da Nova Retórica para as práticas educacionais. PENTEADO, Andrea (UFRJ)

Neste artigo, apresentamos resultados preliminares de pesquisa em andamento, na qual vimos formando Grupos Focais com alunos de ensino básico do Colégio de Aplicação e Colégios Federais do Rio de Janeiro para analisar e compreender seus discursos em relação à disciplina de artes visuais, a partir da Teoria da Nova Retórica, de Perelman, visando à possibilidade de incorporar ao currículo das escolas as contribuições trazidas pelos estudantes. Essa perspectiva considera o currículo como verdade provisória que se estabelece historicamente através de um processo dialético, como empregado por Aristóteles, de capacidade de raciocinar a partir do provável. Ao considerar que as regulações curriculares advêm de acordos firmados a partir do debate entre diversas teses, tomamos por premissa que sua democratização implica o envolvimento de todos os interessados, inclusive os discentes. Após aplicação piloto, averiguamos que os debates desenvolvidos pelos alunos para justificar seu entendimento acerca do objeto das artes visuais fornecem possibilidades de acordos que poderiam nortear, junto às teses de seus professores, o currículo da disciplina. Para tanto, seria necessário pensar também o objeto de conhecimento como resultante de verdades provisórias estabelecidas por acordos anteriores, abdicando dos conteúdos rigidamente enraizados em nossa cultura escolar, a favor de sua revisibilidade.

 

2 - A argumentação na sala de aula – Contribuições da Pedagogia Retórica. OLIVEIRA, Elizabeth Antônia de (UFMG/PUC-MINAS)

Em sua tese “A Produção Textual: Revitalizando a Pedagogia Retórica”, a professora Eliana Amarante de M. Mendes observa que “O papel do ensino, mais do que nunca, deve ser o de ensinar a pensar e ensinar a aprender.” (2010, p. 11). Ela comemora o fato de “uma virada filosófica” ter aberto portas “para os estudos do discurso e da argumentação e para a revitalização da Retórica na atualidade.” (op. cit. p. 11). A partir das discussões da professora Eliana Amarante, tentaremos fazer uma análise das produções de alunos de um curso das Ciências Sociais da PUC-Minas, onde trabalhamos com o projeto Oficinas de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos, e verificar se esses estudantes, na condição de sujeitos acadêmicos, têm plena convicção, na lida com a escrita, do uso e dos movimentos que fazem com instrumentos tanto demonstrativos quanto retóricos, objetivando persuadir o seu auditório, o professor.  Será que esses estudantes estão aprendendo a pensar e a aprender de forma a serem capazes de distinguir, não cientificamente, mas praticamente, características lógicas e retóricas em seus discursos? O fato de terem recorrido a esses ou aqueles instrumentos mostra que têm clara consciência dos aspectos ideológicos que perpassam as produções deles?

 

3 - Demonstração científica e co-construção da competência argumentativa no Ensino Fundamental. LARA E LANNA, Maria dos Anjos (PUC Minas) / SILVA, Mardem Leandro (UFSJ)/COUTO, Daniela Paula (UFSJ)

Como outros processos discursivos, a competência argumentativa da criança é construída dialogicamente em vários contextos, envolvendo vários dispositivos. Neste trabalho, procura-se mostrar que, no âmbito do Ensino Fundamental, o dispositivo argumentativo utilizado pedagogicamente para demonstrar um fato científico participa do enquadre acional e interacional da encenação discursiva, constituindo-se como importante elemento do processo de construção da competência argumentativa das crianças, na ação conjunta com o professor. A partir da análise semiolinguística de trocas conversacionais entre crianças e professores, retiradas dos corpora da pesquisa “Discurso escolar, discurso familiar e desenvolvimento da competência argumentativa”, estudou-se a encenação discursiva, tendo como eixo o dispositivo argumentativo composto por proposta, proposição e persuasão. Pela proposta, tem-se o início do processo argumentativo. Para que este se desenvolva, é necessária uma proposição, ou tomada de posição do locutor ou do interlocutor, considerando tal proposta verdadeira ou não. Por fim, a consistência da proposição é demonstrada explícita ou implicitamente com um ato de persuasão. Além de explicitar diferentes formas de utilização do dispositivo argumentativo, a análise da encenação discursiva permitiu mostrar que o discurso escolar favorece o desenvolvimento da competência argumentativa da criança quando a situação de troca é dialogal e desfavorece quando ela é monologal.

 

4 - A inclusão da Retórica em cursos de Tecnologia: uma experiência. MAGALHÃES, Ana Lúcia (FATEC Guaratinguetá e Cruzeiro)

A FATEC, Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo, é uma instituição de ensino superior dedicada aos cursos de formação tecnológica voltados ao mercado. Por definição, cursos de Exatas não costumam privilegiar o ensino de Humanas, mas há um investimento em Comunicação e Expressão como parte do currículo. A ementa atual trata principalmente de correção gramatical e das diversas formas de comunicação na empresa. A introdução de aulas de Retórica para alunos de Informática tem suscitado resposta entusiástica dos alunos. Alguns deles têm mesmo procurado meios de se aprofundar. Conceitos como ethos, pathos e logos, e argumentação (convencimento e persuasão) são aprendidos com relativa facilidade e bem aplicados nos exercícios. Há indícios de melhoria na comunicação oral e escrita como resultado da compreensão de técnicas discursivas aplicadas a diversos gêneros. Um aprofundamento da pesquisa com aplicação a outros cursos de Ciências Exatas, com destaque para Tecnologia e Engenharia, poderá confirmar a importância da introdução do ensino da Retórica naquele contexto.

 

 

Sessão de comunicação 16

 

1 - Análise dos aspectos retórico-textuais na oralidade jurídica. MELO, Deywid Wagner de (UFAL)

Este trabalho é uma análise dos aspectos retórico-textuais da oralidade jurídica. Tem como objetivo mostrar os mecanismos linguístico-textuais, de caráter retórico, utilizados pelo falante no momento (proferição) da defesa de seus argumentos. Entende-se por retórica a arte de persuadir pelo discurso. Fundamenta-se, no tocante à retórica, em Reboul (2004), Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), Sudatti (2009) e Abreu (2004). Além destes autores, esta pesquisa baseia-se nas questões de texto/discurso e nos estudos conversacionais em Fávero (2003), Koch (2009), Marcuschi (2009) e Antunes (2009). É uma pesquisa de cunho qualitativo. Essa abordagem caracteriza-se pela observação naturalista do processo em que o fenômeno acontece, valendo-se de dados reais, autênticos, ricos e profundos (LARSEN E LONY, 1991). As sessões de júri constituem o corpus deste trabalho através das transcrições das falas de advogados ou defensores públicos bem como de promotores (que representam o Ministério Público).  Esses retores utilizam-se de recursos da linguagem, na modalidade oral da língua, em busca de persuadir seus interlocutores na ocasião constituídos

 

2 - O pathos e o ethos no discurso jurídico: o aborto de fetos anencéfalos.  FERREIRA, Tatiana Affonso (UFMG)

Neste trabalho temos o objetivo de analisar as estratégias retóricas e argumentativas presentes no voto do Relator, Senhor Ministro Marco Aurélio de Mello, no processo de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental número 54 que trata sobre a possibilidade jurídica da antecipação terapêutica do parto de feto já diagnosticado portador de anencefalia e com mínimas possibilidades de vida após o nascimento. Tentaremos averiguar como o discurso jurídico é construído, tendo em vista o seu notório caráter argumentativo. Por se tratar de um pedido que não se encontrava amparado na legislação brasileira e sempre foi gerador de opiniões diversas em diferentes esferas sociais, observaremos quais são as estratégias argumentativas utilizadas pelo locutor a fim de alcançar a adesão do interlocutor e se é trazido elementos da doxa com o objetivo de suscitar emoções no julgador. Abordaremos brevemente como ethos pathos mostram-se presentes dentro de um discurso que tenta se firmar como livre de influências extrajurídicas. 

 

3 - Pós-Marxismo e Retórica Jurídica. MAIA, Fernando Joaquim Ferreira (UFRPE)

Entre os enfoques do pós-marxismo estão a transição ao socialismo, as etapas do capitalismo de Estado e a construção de mecanismos retóricos para otimizar a superestrutura ideológica estatal. A retórica constitui a realidade e constrói meta níveis no controle público da ação do homem no mundo. O último nível, o metódico, situa o ambiente em que o direito regula a relação social para analisar as teses jurídicas sobre o conteúdo dessa relação e as estratégias utilizadas para a aplicação da norma jurídica. A ideologia parece ser incompatível com os objetivos da retórica, como metódica, que não passam por transformar a realidade econômica e política. Realiza-se o inverso para utilizar a retórica no desenvolvimento da superestrutura jurídica pelo pós-marxismo. Começa-se por inferir que o fenômeno jurídico é influenciado pelos condicionantes históricos e materiais. Depois, defende-se que a retórica metódica deve recepcionar o impacto das condições materiais no direito e interagir num contexto marcado por uma rotatividade de processos sociais e contradições. A postura pós-marxista afirma que a lei fundamental do materialismo dialético é a da contradição. Em todas as etapas e especificidades da formação social sempre haverá uma contradição principal que influenciará o surgimento e desenvolvimento das demais contradições sociais. Cabe à retórica metódica auxiliar na detecção das contradições fundamentais e secundárias na relação jurídica e na diferenciação das suas várias etapas de desenvolvimento.

 

 

Sessão de comunicação 17

 

 

1 - O conhecimento e o kairos: uma análise da epistemologia de Isócrates. QUIRIM, Diogo Jardim (UFRGS)

A partir do trabalho que estou desenvolvendo para uma dissertação de mestrado, a apresentação tem por objetivo investigar a postura de Isócrates perante a capacidade humana de conhecimento e suas consequências para uma filosofia política. Dois caminhos são necessários para situar Isócrates em sua própria tradição intelectual: de um lado, os tratados sobre o ser de Górgias e Parmênides; de outro, a epistemologia platônica, seu grande opositor no contexto educacional e filosófico ateniense. Algumas bases do pensamento isocrático entram em choque direto com os trabalhos de Platão: 1) a impossibilidade de prever o futuro; 2) a valorização do conhecimento situado no plano das opiniões (doxai); 3) a dependência da legitimidade do conhecimento em sua relação com a circunstância (kairos). Com uma epistemologia enraizada no kairos, Isócrates enfatiza a utilidade do que hoje conhecemos como retórica para o plano político, assim como a possibilidade de aliança entre conhecimento e mutabilidade.

 

2 - Entre Filosofia e Retórica no discurso Antídosis de Isócrates: a defesa de uma Paideia. LACERDA, Ticiano Curvelo Estrela de (USP)

Após ser derrotado em um litígio judiciário e difamado por causa de sua atividade pedagógica, o ateniense Isócrates (436-338 a. C.) compõe o discurso Antídosis, por volta de 353 a. C. Trata-se de sua última obra publicada e a mais extensa (323 parágrafos), em que o autor disserta sobre os conceitos de sua educação filosófica, tecendo, assim, um apanhado geral de diversos momentos de sua vida como educador, bem como uma sinopse de seu pensamento político e filosófico, com o intuito de se defender da acusação, justificando e, sobretudo, legitimando sua paideia. A presente comunicação buscará expor: (i) como a filosofia isocrática se estabelece contra seus opositores, em especial os sofistas erísticos e a Academia de Platão, não só em Antídosis, mas desde seus primeiros discursos como educador; (ii) e a maneira como o gênero judiciário pode aqui se misturar a outros gêneros retóricos, sobretudo, o gênero epidítico, constituindo assim um discurso misto - μικτο το λόγου.

 

3 - Retórica no Ilissos: entre a democracia e a filosofia. MISE, Lilian Neves (UNIFESP)

“Se pudéssemos encontrar a verdade por nós mesmos haveríamos de nos preocupar com o que pensam os homens?” (Fedro 274b). A atividade de logographos (escritor de discursos) é apresentada como possuindo baixa estima pelos políticos atenienses (Fedro 257c), certamente por ser esperado que o próprio litigante, no exercício de sua cidadania, apresentasse seu caso perante o tribunal. Em nosso trabalho buscaremos investigar a crítica ao discurso do logographos Lísias no diálogo platônico Fedro. Apresentaremos a diferença feita por Platão entre uma retórica (a dos sofistas) que propõe a possibilidade da construção de discurso sobre qualquer assunto ou posição, defendendo a relatividade da verdade e que esta está com aquele que é mais forte em seu poder de persuadir, e outra, a retórica filosófica, que serve como instrumento indispensável para a dialética como reflexão filosófica que busca contemplar o verdadeiro. Neste quadro mostraremos a tensão entre democracia e filosofia como campos nos quais os discursos se submetem a diferentes metodologias (retóricas) para a construção do consenso.

 

4 - A disputa pela philosophía no século IV a.C.: a paideia de Isócrates e a tarefa do mestre. PAGOTTO-EUZEBIO, Marcos Sidnei (FEUSP)

Isócrates concebe a si mesmo, em suas obras, como professor de philosophía, e mestre de uma paideia do lógos. Uma adequada compreensão do sentido que o termo philosophía assume em seu pensamento exige levarmos em conta tal condição de professor a qual Isócrates se refere e a performance que se deve esperar, segundo ele, de todo aquele que pretenda assim ser considerado. Ao chamar sua paideia de philosophía, Isócrates não ignora, obviamente, qualquer "verdadeira natureza" da philosophía – já que o conteúdo do termo era, justamente, o que disputavam, no momento, Isócrates e seus adversários – mas aponta para uma definição de philosophía afastada das exigências epistemológicas de um saber irretorquível, aproximando-a, por outro lado, de demandas formativas e de comunicação, tanto por situá-la privilegiadamente no âmbito educativo, quanto por compreendê-la como processo de formação ético-política que encontra na dóxa - ou opinião compartilhada - seu fundamento.

 

 

Sessão de comunicação 18

 

 

1 - Retórica na defesa da identidade: o caso da Carta de Aristeas a Filócrates. VARGAS, Otávio Zalewski (UFRGS)

O presente trabalho versará sobre o papel da Retórica na defesa de uma nova identidade judaica em Alexandria, dentro do documento atualmente conhecido como Carta de Aristeas a Filocrates, texto de suma importância para o entendimento de uma época bastante controversa dentro da História do Povo Judeu e dos contatos entre Helenismo e Judaísmo. No caso estudado os contatos se deram em Alexandria, cidade considerada a fronteira cultural do Império Ptolomaico, no período que tem início em 300 a.C. e termina em 70 d.C.  O documento tem por pano de fundo a tradução da Torá para o grego Koiné, mas na verdade possuía um objetivo bem claro: fazer uma apologia das leis dos judeus e através disto defender um tipo de identidade judaica ou jewishness completamente revolucionária.

 

2 - Retórica e persuasão na arquitetura e na poesia: um soneto em louvor ao Complexo de Mafra. SILVA, Milena Pereira (UESB)

Filha da necessidade, a arquitetura acompanhou o desenvolvimento humano conseguindo aliar funcionalidade e beleza, pois as construções servem tanto para abrigar os homens e suas instituições quanto para deleitar aqueles que apreciam os edifícios públicos. Em seu caráter de monumento constitui-se como um meio importante de manutenção de memória, função homóloga àquela desempenhada pelos monumentos literários que se pretendem mais perenes que o bronze, como declara Horácio. Identifica-se com a sciencia civilis nos moldes ciceronianos, pois sua condição de verdade, enquanto saber, só pode ser expressa através da eloquência própria aos discursos retóricos. Assim como estes discursos, a arquitetura é capaz de provocar em seus espectadores reações que não se reduzem à admiração provocada pela grandiosidade de determinadas construções. O conjunto arquitetônico harmônico formado pelos ornamentos, materiais, disposição de elementos e proporção é dotado de enargeia e capacidade persuasiva e, assim como a retórica, deve seguir um decoro específico, adequando o estilo à função e ao público a que a obra se destina. Objetiva-se neste trabalho discutir tais correlações existentes entre retórica, arquitetura, poesia e memória através da análise de um soneto em louvor à construção do Complexo arquitetônico de Mafra, construção síntese do reinado de Dom João V.

 

3 - “As leis da história” e a retórica da historiografia nas dissertações históricas da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724-1725). SILVEIRA, Pedro Telles da (UFOP)

O objetivo da presente comunicação é estudar o relacionamento entre a reflexão histórica na passagem do século XVII para o XVIII e o corpus textual e teórico estabelecido pela retórica clássica e por sua (re)apropriação na Idade Moderna. Para isso, tem-se como objeto as dissertações históricas escritas pela Academia Brasílica dos Esquecidos, agremiação letrada que realizou suas reuniões entre 1724 e 1725 na cidade de Salvador, na Bahia, então colônia portuguesa. As dissertações procuravam resolver pontos controversos e duvidosos da história brasílica e, tendo em vista este objetivo, combinavam em seu texto a prática da retórica – a defesa dos interesses portugueses e o recurso à argumentação – com os preceitos da crítica documental, então em emergência no âmbito da historiografia. Procurando combinar o conceito de retoricidade, formulado por David Wellbery, com a teorização sobre os gêneros retórico-literários de Alcir Pécora, este trabalho se pergunta pela identidade do saber histórico no interior do campo mais amplo da produção do discurso e a relação complexa, porém nunca secundária, travada pelos preceitos do método histórico com a retórica, em especial com os modelos de escrita herdados pela tradição retórica.

 

4 - Retórica, imagem e persuasão: os doutores da igreja nas representações barrocas. MENEZES, William Augusto (UFOP)

Dentre as grandes obras do barroco nacional, em seu estilo rococó, destacam-se as igrejas construídas na segunda metade do século 18, sob o patrocínio da potente ordem terceira de São Francisco, em Minas Gerais. Uma das sete maravilhas de origem portuguesa, a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, teve participação direta e destacada de Manoel da Costa Atayde e Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho). O mesmo ocorreu com a Igreja de São Francisco, em Mariana. Muito se tem dedicado ao conhecimento da arquitetura e das artes plásticas em ambos os monumentos, em diversas áreas do conhecimento. Há, no entanto, uma questão intrigante que se apresenta aos estudos discursivos, quando se focaliza, principalmente, o conjunto dos santos representados em imagens e nos medalhões da Capela Mor (em Ouro Preto): os doutores e soldados da igreja. Qual é a função dessas imagens? Certamente, não se trata apenas de uma opção estética nem de uma escolha aleatória de representações; estamos diante da semiotização de um projeto bem mais ousado e complexo – um projeto que justificou a contratação dos principais artistas do momento. A presente comunicação tem por objetivo refletir sobre a finalidade desse contrato discursivo e as suas estratégias retóricas.

 

 

Sessão de comunicação 19

 

 

1 - O escudo de Homero nos discursos de Antifonte. SILVA, Anna Christina da (UFMG/UNIMONTES)

Os poemas de Homero constituem uma fonte importante de informações no que diz respeito à história política, jurídica e religiosa do período arcaico. Por esta razão, concentraremos a nossa atenção no julgamento representado na famosa cena do escudo de Aquiles, em busca de esclarecimentos sobre o desenvolvimento histórico das leis penais. Esta perspectiva é para o nosso estudo muito conveniente, visto que, se conseguirmos observar um desenvolvimento linear entre Homero e Antifonte, encontraremos uma explicação mais apropriada para o problema da influência exercida pelas transformações da vida religiosa e política na formação do direito grego.

 

2 - A retórica das imagens de microstocks: um estudo das representações dos sete pecados capitais no iStockphoto. DORIGO, André Monteiro de Barros (PPGAV-EBA-UFRJ)

Os microstocks são arquivos estabelecidos na internet, os quais comercializam imagens, vídeos ou mesmo músicas prontas para uso a um baixo custo. O primeiro deles, o iStockphoto, foi criado no ano 2000. Esses arquivos vêm adquirindo uma importância cada vez maior nos campos da arte, do design e da publicidade, como fonte de inspiração e base para os seus trabalhos. Há uma enorme diversidade de imagens disponíveis para serem adquiridas. No entanto, as de maior sucesso comercial são as que possuem figuras humanas e servem para muitos usos, ou seja, possuem características genéricas. Não é tão relevante onde ou quando são feitas, mas sim em quantos contextos diferentes elas podem ser empregadas. Dessa forma, as imagens de microstocks são significantes, ou seja, podem receber diversos significados tal como ocorre com as palavras da língua falada, sendo intertextuais em sua essência. A presente comunicação pretende abordar a seguinte questão pertinente às imagens de microstocks: se a arte retórica tem como objetivo a persuasão, como se coloca a questão da eloquência no discurso dessas imagens com características genéricas? Nesse sentido, serão analisadas representações visuais dos sete pecados capitais, exemplos contemporâneos da tradição das imagens retóricas cristãs, armazenados na página do iStockphoto.

 

3 - Retóricas do imaginário cinematográfico na construção da distopia do real. GILLONE, Ana Daniela de Souza (ECA-USP)

O cenário da distopia da política do real pode ser visto no sertão de usinas em Baixio das Bestas e na urbe paulistana de O Invasor. Nesses filmes, a descrença nas mudanças da realidade social é construída pelos trajetos no dia a dia das personagens. A proposta é analisar o processo retórico-persuasivo de construção da distopia cotidiana no sertão e na cidade. Um exame sobre as estratégias de persuasão na construção das representações das narrativas com a intenção de tornar perceptível, através delas, os argumentos auxiliadores da produção de um discurso persuasivo. A retórica do imaginário cinematográfico e as representações das personagens que abusam e das que vivem na condição de submissão e de impossibilidades serão avaliadas sob o espectro do jogo que o diretor faz com o espectador e com a fantasia do cinema, o que ampliará o campo da discussão da retórica e reforçará a condição do filme como próprio acontecimento.

 

4 - Recepção e habilidades retóricas. Simone de Beauvoir e a estética cinematográfica de Brigitte Bardot. SANTOS, Magda Guadalupe dos (PUCMINAS)

Investigam-se os aspectos retóricos presentes no texto de Simone de Beauvoir acerca das encenações da atriz Brigitte Bardot. O texto surge em 1959 e tem como propósito maior investigar a questão da recepção pelo público francês e norte-americano da performance de Bardot em alguns de seus filmes. A retórica corpórea apresentada por B.B. avilta e seduz seus espectadores, aguçando a complexa relação entre o espectro do feminino e o público em processo de transformação cultural. A relação entre o eu - sujeito da escrita e o outro - sujeito da encenação se intercala pelas projeções da escrita textual, as quais se sustentam no estudo estético sobre a personagem vivida por Bardot. Beauvoir é espectadora de Bardot, como o é de seu tempo, e ambas, cada uma experimentando as sutilezas e habilidades retóricas que lhe são próprias, provocam seus leitores e admiradores a reconstruírem os paradigmas corporais e textuais em torno do feminino em meados do século XX. A ênfase que Simone de Beauvoir dá à sensualidade de Brigitte Bardot ressignifica a tendência simplista de uma época a creditar nos valores masculinos a possibilidade única de manipular o sentido do corpo feminino estigmatizado pela sociedade e reproduzido pelo cinema.

 

 

Sessão de comunicação 20

 

 

1 - “Da fala ao grunhido”: a polifonia como estratégia discursiva de construção do ethos. RUFINO, Janaína de Assis (UEMG)

Propomos analisar como as diversas vozes presentes no texto “Da fala ao grunhido”, de Ferreira Gullar, publicado na Folha de São Paulo em 25 de março de 2012, autorizam a construção da representação de um locutor que se depreende não somente pelo que enuncia, mas também pelas modalidades de sua enunciação, pelas posturas que adota e por seu estilo principalmente no que se refere ao uso da polifonia na construção da confiabilidade de seu auditório. Sustentaremos nossa análise nos pressupostos da abordagem modular do discurso, que, ao tratar dos aspectos relativos à polifonia, fundamenta-se na concepção de polifonia bakhtiniana. Pretendemos, neste trabalho, analisar a presença de vozes marcadas e/ou não-marcadas no texto propondo uma análise do ethos discursivo que se oriente pela materialidade da interação, pelo evidenciamento das diversas vozes presentes no texto e sua função, ou seja, através da percepção das informações advindas de diversas formas de organização do discurso. Em que pese a ousadia, acreditamos que a tônica das discussões e dos aprofundamentos sobre os estudos da linguagem centram-se no diálogo entre diferentes referenciais teóricos. Em nossa proposta: a abordagem modular do discurso e a retórica. 

 

2 - “É um crime”: as operações de construção da imagem de formador de opinião por um jornalista. CUNHA, Gustavo Ximenes (UFMG)

O objetivo desta comunicação é estudar, com base no Modelo de Análise Modular do Discurso (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001), as operações discursivas que permitem ao jornalista Gilberto Dimenstein construir para si a imagem de formador de opinião no artigo intitulado “É um crime”, publicado no jornal “Folha de S. Paulo”. Nesse artigo, que trata do resultado insatisfatório de alunos no exame da OAB, o autor assume o papel de autoridade no assunto tratado, cujo saber é validado pela instituição (jornalística) que representa. Mas, dada a natureza polêmica do assunto, propiciando a manifestação de opiniões divergentes, o papel assumido pelo autor não garante a adesão dos leitores às proposições defendidas. Por isso, esse autor se esforça por convencer os leitores a respeito da consistência de suas opiniões, dado o diálogo que mantém com opiniões adversárias. Dessa “disputa” pelos leitores decorre o emprego, no artigo analisado, de um conjunto de recursos discursivos, como conectores, operadores, modalizadores, desinências verbais e pronomes de 1ª pessoa. Como marcas de superfície, esses recursos são importantes, porque sinalizam as diferentes operações que o autor de “É um crime” realiza ao construir para si a imagem de articulador de um ponto de vista autorizado, de formador de opinião.

 

3 - As relações discursivas no artigo “Inguinorança”, de Clóvis Rossi. MENDES, Fernanda Teixeira da Costa (UFMG)

Nesta comunicação, analiso as relações discursivas predominantes no artigo de opinião “Inguinorança”, de Clóvis Rossi, publicado no jornal “Folha de São Paulo”, com base no Modelo de Análise Modular do Discurso (ROULET; FILLIETAZ; GROBET, 2001). Nesse artigo, que parte da polêmica envolvida na autorização dada pelo MEC à circulação de um livro didático que ensina a falar “os livro”, verifica-se que o discurso é organizado a partir de um conjunto de constituintes em que a estrutura sintática e os conectores sinalizam relações discursivas que instruem sentidos ao leitor, guiando-o no percurso interpretativo. O autor  ressalta o crime linguístico, a má formação do educador e o preconceito linguístico como pontos centrais para desenvolver a argumentação que coloca o MEC como réu e o articulista como defensor da língua. Portanto, espera-se que o autor, para dar consistência à argumentação, faça uso de contra-argumentos, argumentos, comentários e reformulações a fim de delimitar um percurso interpretativo para que o leitor seja influenciado pelas opiniões veiculadas no artigo e, estrategicamente, essa intenção persuasiva convença o leitor. O levantamento das relações discursivas predominantes mostra como essas relações podem provocar efeitos de sentido capazes de conferir autoridade a um discurso pretensamente formador de opinião.

 

4 - Análise do Discurso e Arte Retórica: as hierarquias na “Inguinorança” de Clóvis Rossi.MARINHO, Janice Helena Chaves (UFMG)

Nesta comunicação, apresento uma análise do artigo de opinião “Inguinorança”, de Clóvis Rossi, publicado na Folha de S. Paulo, por ocasião da polêmica criada com a aprovação pelo MEC de um livro didático que “ensina a falar e escrever errado”. Analiso o artigo à luz do Modelo de Análise Modular do discurso, focalizando-o do ponto de vista hierárquico. Inicialmente defino os constituintes de base da estrutura do texto e a forma como eles se estruturam. Chego a uma estrutura hierárquica textual, que permite a visualização das hierarquias e relações existentes entre os constituintes do texto analisado, serve de base para sua análise sob outros pontos de vista e permite considerações sobre a estruturação do texto e o emprego de estratégias argumentativas pelo orador. O artigo “Inguinorança” se realiza sob a forma de uma intervenção complexa, composta por outras intervenções, que, por sua vez, compõem-se por intervenções, atos e uma troca encaixada, por meio da qual é simulado um diálogo no interior do texto. A análise do artigo sob essa perspectiva constitui uma etapa para a análise das estratégias argumentativas empregadas pelo orador que lança mão de argumentos quase-lógicos visando à adesão de seu auditório.

 

 

Sessão de comunicação 21

 

1 - Itamar Franco e Collor - dois governos, uma integração: Brasil-Argentina. BURMANN, Graziele Madalena Pereira (UNIOESTE)

Brasil e Argentina compartilhavam uma história comum em meados dos anos 80: ambos vinham de um regime ditatorial e se encontravam em relativo atraso político-econômico e social. Com vistas a mudar essa situação, deu-se início a uma série de reuniões e acordos que culminariam no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), juntamente com o Paraguai e Uruguai. Para que esse acordo de livre comércio entre estes países da América Latina se concretizasse, várias foram as negociações e vários, portanto, foram os pronunciamentos feitos pelos representantes de Estado buscando acentuar a integração entre eles. Pensando nisso, o estudo se debruça sobre a construção da integração em dois discursos de presidentes brasileiros proferidos perante o mesmo auditório - a Argentina. São datados de 1990, posterior à consolidação dos tratados, portanto, e de 1993, já com a existência do MERCOSUL. Buscaremos, sob a ótica da Teoria Retórica na sua interface com a Política, quais as estratégias utilizadas na construção desse discurso e, por fim, como é definida a integração entre os dois países.

 

2 - Figuralidade retórica: a arte retórica utilizada nos planos de governo do candidato Lula nas eleições de 2002 e 2006. PARZIANELLO, Sandra Barbosa (Unipampa)

Neste artigo, é feita uma análise comparativa dos discursos retóricos dos Planos de Governo do candidato Lula nos pleitos de 2002 e 2006, identificando sob a ótica interdisciplinar os valores e ações políticas. Na análise são considerados elementos em jogo como a credibilidade do orador, suas paixões e o raciocínio lógico a fim de persuadir o público de uma verdade. Importante compreender a ação das figuras retóricas na estrutura dos discursos e os elementos em jogo para a compreensão do papel na sociedade contemporânea. A investigação retórica aplicada ao campo do discurso político, na perspectiva deste artigo, atualiza sobremaneira o conhecimento sobre práticas persuasivas e invoca a relação entre a construção do argumento e a formação da Opinião Pública. Partindo de uma tradição aristotélica atualizada desde a memorial obra sobre argumentação inscrita nas pesquisas de Chaïm Perelman e Olbrechts-Tyteca (1957), o artigo condensa uma geração de pesquisadores contemporâneos em Retórica e em Comunicação e Política para falar de como o governo Lula vendeu em duas eleições distintas a ideia de um Plano de Governo que foi tão acolhido pelo eleitorado brasileiro.

 

3 - Relações entre ethos discursivo e pré-discursivo nas campanhas presidenciais de 2010. RIBEIRO, Maria Clara Maciel de Araújo (UFMG)

Este estudo focaliza a campanha presidencial de 2010 e objetiva analisar a natureza das relações estabelecidas entre a construção do ethos pré-discursivo e do ethos discursivo nos candidatos à presidência da república. No campo político, duas relações com o ethos pré-discursivo podem ser observadas: a) ele costuma ser endossado por candidatos que acreditam ter construído uma imagem de si condizente com os anseios de uma disputa eleitoral; b) ele costuma ser desconstruído concomitantemente ao processo de construção de um novo ethos, quando aquele se mostra desfavorável ao candidato. A tentativa de reconstrução imagética corre o risco de não ser bem-sucedida quando a imagem prévia é dotada de tal força que acaba por deflagrar o (novo) ethos discursivo como um artifício eleitoral. Os casos de sucesso ocorrem quando o ethos pré-discursivo se mostra incipiente e disforme ao ponto de ser remodelado por um novo investimento imagético. O estudo em questão analisa o ethos de cada candidato à presidência e conclui que o primeiro exemplo se encaixa com justeza na estratégia político-discursiva da candidata Marina Silva (PV), enquanto o segundo, em suas duas distintas vertentes, é ilustrado pelas estratégias adotadas pelos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), respectivamente. 

 

4 - Um estudo de caso: algumas das curiosas estratégias de argumentação do Presidente francês Nicolas Sarkozy. MACHADO, Ida Lucia (UFMG)

Nesta comunicação, gostaríamos de desvendar, por meio da análise do discurso que praticamos no Núcleo de AD da FALE/UFMG, algumas das estratégias de argumentação utilizadas pelo atual Presidente da República francesa, Nicolas Sarkozy. Para tanto, usaremos trechos (por nós traduzidos) retirados do livro nomeado [OFF] Ce que Nicolas Sarkozy n’aurait jamais dû nous dire, escrito pelos jornalistas Nicolas Domenach e Maurice Szavran, ambos pertencentes ao jornal francês Marianne. Nosso referencial teórico liga-se à moderna análise do discurso, ou seja, aquela que já integrou em si teorias da argumentação oriundas de diferentes teóricos. Tentaremos mostrar como o presidente francês tenta convencer o “outro”, seu interlocutor, de seus raciocínios por vezes bizarros: para tanto, acreditamos que ele usa (de modo consciente ou não) estratégias discursivas que poderíamos chamar de: “argumentação pelo absurdo” (Perelman, 1958); “argumentação pela ironia” (Machado, 1989) e finalmente “dimensões argumentativas” (Amossy, 2006). Nosso objetivo é o de mostrar que a análise do discurso, ao se beneficiar de teorias argumentativas, aumenta o nível de compreensão/interpretação de estratégias discursivas políticas, reduzindo ou ampliando os efeitos que o uso destas pretende obter junto ao grande público.

 

 

Sessão de comunicação 22

 

1 - Tipo assim, curti. Um estudo sobre a compreensão e retenção de mensagens publicitárias enriquecidas de figuras retóricas. NETO, Celso Figueiredo (MACKENZIE)/DERANI, Sofia (FAAP)

O presente estudo visa validar as conclusões do famoso artigo de McQuarrie e Mick (1996) que estabeleceu uma curva de desvio de sentido a partir das figuras de estilo, considerando aquelas de mais simples compreensão, esquema, o início e as figuras de decodificação complexa, os tropos, como o final dessa curva retórica. No estudo norte-americano, verificou-se o quanto o nível de sofisticação do discurso (desvio) contribuiu para a retenção e compreensão da mensagem. Passados 16 anos e considerados: a) as diferenças culturais entre os dois países e b) as mudanças superlativas que a internet trouxe para o ambiente das comunicações, em especial junto ao público jovem, consideramos importante verificar a validade daquelas conclusões em nosso país. O presente estudo visa verificar junto a jovens estudantes de publicidade, cursando o primeiro semestre, na cidade de São Paulo, seu índice de compreensão de anúncios publicitários mais ou menos carregados de figuras de estilo e verificar se o constructo retórico contribui ou não na retenção da mensagem e/ou do produto anunciado.

 

2 - A metalinguagem como estratégia retórica na publicidade televisiva. QUEIRÓZ, Lizainny Aparecida Alves (CEFET-MG)

Este trabalho baseou-se nos estudos Semiológicos e na Análise do Discurso, na qual a estratégia discursiva da mídia é caracterizada pela sedução. Esta característica funciona de forma a difundir e ampliar os estereótipos, disseminando determinados padrões de vida. No caso da publicidade televisiva, há uma invasão de imagens enaltecendo certo modelo ideal.  O objetivo foi examinar como o imaginário sócio-discursivo atravessa as publicidades televisivas. Com uma estratégia metodológica que procurou dar conta do contexto retratado na publicidade analisada, fizemos uma investigação docorpus composto por uma “metapublicidade” na qual se usou três categorias previamente selecionadas: metalinguagem, afetividade e imitação (a mimesis de Aristóteles). Os resultados permitiram compreender o trânsito dos valores e das crenças promovido pela publicidade estudada no âmbito dos imaginários sócio-discursivos. No espaço discursivo constituído pela publicidade, detectou-se a comunicação persuasiva como tecnologia do imaginário e da sedução. Segundo a Semiolinguística, a argumentação discursiva pode se dar tanto pela sedução (que envolve as emoções ou  pathos) quanto pela persuasão (logos).Verificaremos, portanto, a retórica no gênero publicidade.

 

3 - Análise de estratégias retórico-argumentativas em publicidades bancárias. PAULISTA, Romison Eduardo (PUC Minas)

Vista a importância das publicidades comerciais para a economia de mercado, é salutar avaliar como se dá o processamento retórico-discursivo de publicidades bancárias. Este trabalho, tomando por objeto o uso argumentativo dos Atos de Fala Indiretos no discurso publicitário bancário, busca discutir a seguinte questão: quais são os atos de fala indiretos mais recorrentes em publicidades bancárias e os efeitos perlocucionais decorrentes desse uso. Esta escolha deve-se à hipótese de que as publicidades ativam estratégias retórico-discursivas que buscam a adesão do interlocutor por um efeito de identificação entre orador, instituição bancária, e o auditório, cliente. Desse modo, buscamos apoio nos quadros teóricos da Análise do Discurso, a Teoria Semiolinguística; da pragmática, a Teoria dos Atos de Fala; e da Retórica, ethos, pathos e logos; conceitos que nos permitem descrever e avaliar determinados mecanismos do jogo retórico-argumentativo acionados na prática publicitária. O trabalho desenvolve-se por dois momentos: a primeira parte é destinada à exposição do quadro teórico-metodológico que servirá de fundamentação às análises das peças selecionadas; e, na segunda parte, serão desenvolvidas as análises das publicidades, de modo a elucidar as estratégias linguístico-discursivas que fundamentam a realização dos Atos de Fala Indiretos. 

 

4 - Informação, Publicidade e Argumentação. MELLO, Shirlei Maria Freitas de (UFMG)

Neste trabalho, sob os fundamentos da Análise do Discurso, especialmente a partir das contribuições do Tratado da Argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca, buscamos compreender a relação que o discurso informativo veiculado em reportagens de revistas de informação semanais tem mantido com o discurso publicitário. Para isso, procuramos identificar as estratégias argumentativas utilizadas nesses discursos, a fim de observar essa relação interdiscursiva. Consideramos que o discurso publicitário pode ser dominante na construção de estilos, de identificações e de representações identitárias, capaz de impor, em suas representações, valores, ideais, mitos e crenças. Quanto ao discurso informativo, o consideramos fundamental para fazê-lo midiático, uma vez que as mídias tomam a informação para integrá-la em suas lógicas econômica, tecnológica e simbólica. Sob esse ponto de vista, partimos do pressuposto de que o discurso informativo tem sido usado como estratégia argumentativa para incitar o leitor, despertando nele a necessidade e o desejo de consumir. Dessa forma, estudar essa relação parece-nos fundamental para compreender como se dá o fenômeno da informação midiática na contemporaneidade e as práticas sociais que aí se revelam.

 

 

QUARTA FEIRA, dia 29, 16h30 às 18h30

 

Sessão de comunicação 23

 

1 - A Arte Retórica como instrumento metodológico de análise da dimensão ética-emocional em contexto de formação. SANTOS, Glauria Janaina (UFRJ)

A pesquisa em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE/UFRJ) contempla o entendimento de duas dimensões ainda pouco exploradas pelos pesquisadores do campo da educação no Brasil, a ética e a emoção. Trata-se de um estudo de caso, em que serão examinados, por meio da análise retórica, os argumentos dos alunos, docentes e coordenadores sobre a concepção de emoção/ética que possuem e como essas categorias estão sendo construídas ou não nessa formação profissional. Tem por objetivo central compreender em que medida a escola pode contribuir para o desenvolvimento de uma educação/formação que favoreça a construção de princípios éticos e o entendimento das questões emocionais, estabelecendo aproximações entre ambas a partir da Teoria da Argumentação: Nova Retórica, formulada por Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, na segunda metade do século XX. O cenário para a investigação de campo é o CEFET-RJ, um centro de educação pública federal (RJ) tradicionalmente reconhecido por sua formação tecnicista. Este centro privilegia a dimensão técnica em relação às demais dimensões como a ética e emocional, e é procurado por jovens que visam à inserção no mercado de trabalho.

 

2 - Retóricas das novas tecnologias na sociedade contemporânea: instrumentos de ensino/aprendizagem ou de controle no contexto escolar? GARCIA, Janaina Pires (UFRJ)

A presente pesquisa investiga as novas tecnologias na sociedade contemporânea e, particularmente, como a mesma vem sendo inserida no contexto escolar. Numa sociedade em que a comunicação e a informação circulam numa velocidade jamais vista, tais processos modificam nossa maneira de pensar, de agir e de estar no mundo. A partir disso, proponho, como objeto de análise, os discursos dos professores do Ensino Médio que atuam em diferentes redes de ensino (privada e particular) acerca do que entendem por tecnologia, a fim de perceber através de suas falas possíveis embates de como essas novas tecnologias estão sendo inseridas na escola. Nesse sentido, como pretendo mostrar visões contraditórias acerca de um mesmo assunto, a Teoria da Argumentação ou Nova Retórica será utilizada como metodologia de análise do discurso por permitir a observação de distanciamentos e aproximações entre diferentes argumentos. Para análise dos discursos dos professores sobre o que eles entendem acerca do conceito de tecnologia e da descrição do uso da mesma em espaço escolar, utilizarei a Teoria da Argumentação proposta por Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, por apresentar uma taxonomia do discurso mais elaborada; porém as teorias desenvolvidas por Michel Meyer e Stephen Toulmin nos servirão como suporte de análise.

 

3 - A retórica na produção de textos argumentativos em Língua Espanhola: uma experiência de ensino de regras argumentativas e conectores textuais. MENICONI, Flávia Colen (UFAL)

Esta comunicação tem por objetivo apresentar os resultados parciais de uma pesquisa de doutorado desenvolvida sobre o ensino e aprendizagem da estrutura retórica na produção de textos argumentativos em Língua Espanhola. O trabalho relata a experiência didática realizada, a partir da leitura e produção de textos argumentativos, com os alunos das disciplinas de Introdução à Língua Espanhola, do curso de Letras, da Universidade Federal de Alagoas. Na apresentação dos resultados, será exposta a análise retórica das produções textuais desenvolvidas pelos alunos, bem como as dificuldades presentes em relação à aplicação das regras de progressão textual e uso dos conectores argumentativos, no processo de escrita em Língua Espanhola. Objetiva-se também apresentar a reflexão sobre a percepção dos alunos em relação à experiência de leitura, escrita e ensino dos conectores argumentativos em Língua Espanhola.  Os resultados da pesquisa apontam para o aspecto positivo do ensino explícito da estrutura do texto retórico e das regras de uso dos operadores argumentativos em espanhol.

 

4 - Retórica multilíngue norte-americana: alternativas para a escrita acadêmica monolíngue. MORAIS, Kátia Vieira (UNIPAMPA)

Denomino retórica multilíngue a criação de espaços multilíngues na/para a produção acadêmica promovida pelos movimentos de retórica contrastiva, retórica e composição (Rhet/Comp), estudos latinos/as, code-meshing e transnacionalidade (ver Kaplan, 1996; Kachru, 1990; Miller, 1997; Canagarajah, 2006; Lu, 2006; Villa-Nueva, 1993; Martinez, 2009; Young, 2007; Horner, NeCamp & Donahue, 2011). Propositalmente, uso o termo movimento com certa liberdade, englobando áreas de estudo, teorias de escrita/produção textual e grupos de discussões profissionais para salientar a disseminação da retórica multilíngue nos departamentos de Inglês em universidades localizadas em países de língua inglesa e na produção acadêmica oriunda dos mesmos.  Nos Estados Unidos, os departamentos de Inglês oferecem as disciplinas básicas de escrita/produção textual para todos os alunos ingressantes na graduação. Portanto, nesse vastíssimo horizonte de atuação profissional, a retórica multilíngue suscita uma alternativa viável no contexto monolíngue da academia norte-americana. Nesta investigação, analiso conceitos e características da retórica multilíngue conforme produção oriunda dos movimentos acima citados para argumentar pela viabilidade do uso desses conceitos e características multilíngues na escrita acadêmica produzida em Inglês nas universidades brasileiras.

 

 

Sessão de comunicação 24

 

1 - De Copia de Erasmo: uma retórica renascentista. SARTORELLI, Elaine Cristine (USP).

Esta comunicação pretende comentar aspectos da retórica renascentista por meio do manual De Copia, um dos textos mais importantes e influentes no século XVI - momento em que, impulsionada pela redescoberta dos textos clássicos, a Retórica ganhava novo fôlego e  recuperava antigas feições, ao mesmo tempo em que era utilizada com finalidades inimagináveis para os antigos (como as polêmicas religiosas, fomentadas agora pelo livro impresso). Ademais, a existência de um manual inteiramente voltado para a aquisição de copia  não foi uma herança clássica, mas uma inovação. Isso se deveu a que Erasmo não considerava a copia apenas como riqueza de uerba (a ubertas orationis), mas também abundância de res. Assim, a primeira edição de  seu livro (1512) recebeu o título de De duplici copia verborum ac rerum e as demais, De utraque verborum ac rerum copia. Comentaremos a recepção quinhentista de tratados como De inuentione, os quatro  métodos renascentistas para obtenção de copia, e por fim as técnicas erasmianas, que chegam ao número de onze.

 

2 - A interação entre as artes da retórica e da poética em preceptivas quinhetistas e seiscentistas. SANTOS, Halysson F. Dias (UESB)

Há uma relação muito estreita, nas preceptivas italianas, francesas e ibéricas dos séculos XVI e XVII, entre retórica e poética. Nas letras desse período, a retórica não é uma tekhné empregada unicamente na oratória (discursos jurídicos, parlamentares ou em sermões) ou na ars dictaminis, mas também na produção de discursos poéticos. As auctoritates retóricas mostram-se, em muitos casos, tão presentes nas preceptivas dedicadas à arte poética, como as autoridades propriamente poéticas. Os vários gêneros de poesia então praticados não apenas eram produzidos mediante a aplicação de técnicas retóricas tomadas como que por empréstimo, mas são classificados como gêneros, ou, para ser mais exato, sub-gêneros retóricos, que, como o sermão, por exemplo, enquadram-se em um dos três gêneros da retórica, o demonstrativo (epidítico), ou seja, aquele que, segundo a Retórica de Aristóteles, é destinado ao louvor ou ao vitupério. Pretende-se, portanto, nesse trabalho que ora se apresenta, divulgar resultados de pesquisa que leva em consideração as relações que se estabelecem entre poética e retórica a partir do estudo desse conjunto de preceptivas poéticas, tendo em vista as implicações dessa interação para a produção poética coeva.

 

3 - A orientação retórica na concepção de poesia da Prolusione petrarchesca, de Cristoforo Landino. SALTARELLI, Thiago (UFMG)

Cristoforo Landino foi um filósofo ligado à Academia Neoplatônica de Marsilio Ficino e catedrático de retórica e poesia no Studium Generale de Florença. Entre os humanistas do Quattrocento, foi um dos maiores incentivadores do uso da língua vulgar, contribuindo para o desenvolvimento da “língua toscana” e das letras florentinas. Nessa função, realizou diversos discursos, comentários e estudos de autores da literatura italiana, como Dante e Petrarca. Ao longo desses textos, Landino apresenta definições distintas e mesmo contraditórias para a poesia, bem como opiniões diversas sobre a arte poética e o estatuto do poeta. Se, por um lado, sua ligação com Ficino e o neoplatonismo leva-o a postular a ideia de que a poesia é fruto de inspiração ou furor divino, por outro lado, parece-nos que suas atividades ligadas à cátedra de retórica do Studium florentino o conduzem a uma orientação mais aristotélica para pensar a poesia. O objetivo desta comunicação, portanto, é dar a conhecer brevemente as diferentes perspectivas presentes na obra landiniana no que se refere às concepções sobre a arte poética e proceder a uma demonstração da orientação retórica presente na Prolusione petrarchesca, discurso pronunciado por Landino a respeito de seus estudos sobre Petrarca.

 

4 - Arte e engenho no tratado Da Pintura Antiga de Francisco de Holanda. NASCIMENTO, Cristiane Maria Rebello (UNIFESP).

O tratado Da Pintura Antiga (1548) do pintor português Francisco de Holanda atraiu a atenção de muitos estudiosos principalmente em razão de seu suposto neoplatonismo. Vários deles defenderam que o neoplatonismo de Holanda dava aos seus escritos um estatuto especulativo e teórico que falta aos tratados de arte italianos do período. Além disso, argumentavam que o aspecto especulativo do tratado resultava da influência das teorias estéticas de Michelangelo sobre Holanda. Esta comunicação vai na direção contrária dessas proposições. Considerando a definição aristotélica de techné, que estabelece uma conexão necessária entre teoria e prática artística, o propósito de minha comunicação será demonstrar que o emprego de um vocabulário neoplatônico por parte de Holanda não permite tomar o Da Pintura Antiga como prefiguração de uma epistemologia da arte. Longe disso, o tratado de Holanda dá continuidade ao esforço de Alberti em instruir pintores e escultores na doutrina do desenho e elevar a qualidade técnica das obras de arte.

 

 

Sessão de comunicação 25

 

1 - Euripidean agones performed for the camera: translating ancient rhetoric into the medium of cinema. BAKOGIANNI, Anastasia (The Open University)

This paper will examine the reception of one of Euripides' favourite rhetorical devices, the agon, by the Greek-Cypriot film director Michael Cacoyannis (1922-2011). For Cacoyannis Euripides was the most modern of the  three ancient tragedians. He made it his personal mission to translate the work of Euripides into the modern medium of cinema and was able to complete three films modelled on the tragedian's dramas: Electra (1961-62), The Trojan Women (1970-71) and Iphigenia (1976-77). This analysis will focus in particular on how he translated the theatrical device of the agon into a form that could be understood by a modern cinematic audience. Cacoyannis refined his approach over the course of his three films: from the emotional battle between Electra and Clytemnestra in the first film, to Hecuba's victory over Helen in the second to violence of Clytemnestra's quarrel with Agamemnon in the final cinematic reception, the director moved from the theatrical to the filmic mode (MacKinnon 1986). The choices the director made during this process of transformation allow us to reflect back on the ancient art of rhetoric and its popularity in the fifth-century BCE. This paper will be illustrated by photographs and clips from all three films.

 

2 - The Art of Safe Speech: Schünzel’s Amphitruo. McHUGHMary R. (Gustavus Adolphus College)

Greek New Comedy and the Roman comedies derived from it are not generally considered vehicles for political satire. Unlike Old Comedy, especially Aristophanes’ devastating attacks on contemporaries, there are no definitive political references in Plautine comedy. So it is surprising to find political satire in modern adaptations of Plautus’ Amphitruo, a mythological burlesque that retells the story of Jupiter’s seduction of Alcmena in the guise of her husband, Amphitryon. Some claimed that Molière’s adaptation of the play (1668) criticized the affairs of Louis XIV. Amphitruo was also adapted to the cinema screen in Nazi Germany in 1935. Reinhold Schünzel’s Amphitryon (Aus den Wolken kommt das Glück), parodied the Nazi regime. It is possible that neither Louis XIV and his court nor the Nazi censors anticipated the use of New Comedy as a vehicle for political subversion and thus allowed the Plautine comedy, considered innocuous, to be performed. There are traces in classical rhetorical treatises that point to just this kind of covert and therefore safe criticism being conveyed through drama. Among others, the rhetorician Quintilian describes strategies that allow open statements against tyrants provided such statements could also be understood another way. (Quint., InstOr. 9.2.67). An analysis of the visual style and dialogue in specific scenes of Schünzel’s film will demonstrate that the ancient authors, and probably also Molière, were astute in their understanding of how safely to criticize the powerful.

 

3 - Medéia em close upKseni, de Jocy de Oliveira.  COELHO, Maria Cecília de Miranda Nogueira (UFMG)

Pretende-se discutir alguns aspectos da ópera Kseni - a estrangeira (2006), da compositora, pianista e artista multimídia brasileira Jocy de Oliveira. A obra é uma releitura do mito de Medéia, no contexto de problemas políticos e sociais do século XXI, o que as palavras iniciais da protagonista indicam: “Trangressora... Imigrante... Bárbara... Terrorista... Mulher... Meu corpo, minha única arma”. O lançamento da ópera em DVD permite-nos assisti-la como a um filme e analisar a produção de certas emoções no espectador. A partir da perspectiva dos primeiros teóricos do cinema como Munsterberg e de cognitivistas atuais (Platinga, Currie, Grodal), gostaria de discutir certos dispositivos como o uso do close up para produção de emoções como, por exemplo, compaixão. Munsterberg (1916), apoiado nos estudos da então moderna psicofisiologia, defendia: “a sutil arte da câmera poderá despertar na mente do espectador as particularidades de muitos comportamentos e emoções que são hoje impossíveis de exprimir com o recurso das palavras”. Para nós que estamos, aristotelicamente, acostumados com a leitura do texto dramático grego antigo, será interessante comparar algumas emoções antigas e modernas e discutir os recursos do cinema no direcionamento do olhar e o estilo (léxis) do diretor na produção de certos efeitos e afetos.

 

4 - Tradução coletiva funcional e cênica de teatro antigo no Brasil. BARBOSA, Tereza Virgínia R. (UFMG);  CARAVELLO, Andrea (UFMG)

Até o momento – excluídas as adaptações violentas que modificam, reescrevem e mutilam os textos antigos –, o teatro grego, no território brasileiro, vem sendo sendo lido por uma elite intelectual de acadêmicos e artistas selecionados. As razões são muitas e entre elas destacamos a que – julgamos – mais pesa na escolha dos atores, diretores e encenadores: a tradução erudita e sofisticada que lhes chega às mãos não se adequa à encenação para o grande público. Não se condene, contudo, a tendência vigente. Tais traduções foram feitas por e para um grupo diferenciado: os helenistas e estudiosos de teatro preocupados com rigores acadêmicos, fidelidade histórica, temas filológicos e discussões filosóficas. Acrescente-se que a tradição tem privilegiado o texto, vendo a representação como possibilidade remota. Nossa proposta tenta amenizar o problema de verter a Antiguidade nos nossos dias por várias estratégias, uma delas é a tradução como o processo coletivo e criativo; a outra é traduzir todo o tempo em duplas de helenistas e atores. Sobre nossas experimentações –  as quais se fizeram sob uma obsessão por traduzir todas as figuras retóricas que Eurípides utiliza e que conseguimos detectar –  vamos observar o texto traduzido para a montagem da Medeia de Eurípides realizada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

 

Sessão de comunicação 26

 

1 - Apontamentos sobre um uso não filosófico do “elenchos” em Platão. MATOS JÚNIOR, Fábio Amorim de (UFG)

A pluralidade de significados conferidos ao termo “dialética” permite, por vezes, situá-lo em esferas conceituais diametralmente opostas. Como acontece, por exemplo, entre o pensamento de Platão e Aristóteles. Platão, apesar da diversificação metodológica que confere ao termo, vincula expressamente o método dialético à busca por um saber de ordem filosófico que, enquanto tal, pretende-se verdadeiro. Já Aristóteles, nos Tópicos, modifica o valor epistemológico da argumentação dialética, redirecionando-a para o domínio da opinião. Embora o processo dialético, tal qual Aristóteles pretende vincular à prática socrática do elenchos, nem sempre se verifique nos diálogos de Platão, ainda assim cabe perguntar: será que, nos “diálogos socráticos”, o uso do elenchos sempre comporta uma separação tão sólida? Ou seja, o método atribuído a Sócrates sempre atende à prerrogativa de um procedimento destinado à busca pelo saber? Ao levar em consideração a argumentação de Sócrates contra Meleto na Apologia, tudo indica que não. Todavia, neste caso, se é verdade que o método de Sócrates pode ser aproximado da descrição dada por Aristóteles, urge analisar as implicações decorrentes do fato. Afinal, em que medida tal uso não aproximaria a argumentação de Sócrates daquilo que, na perspectiva de Platão, constituiria terreno delimitado de uma argumentação retórica?

 

2 - O “discurso figurado” nos diálogos socráticos: uma reflexão proposta por Demétrio no tratado Sobre o estilo. FREITAS, Gustavo Araújo de (UFMG)

Abordado nos parágrafos 287 a 298 do tratado Sobre o estilo de Demétrio, o chamado “discurso figurado” apresenta-se como um ardiloso exercício de dissimulação, constituindo-se em uma mensagem de reprovação cuja intenção moral ou acusatória do enunciador permanece oculta. É digno de nota o fato de que estamos diante de situações de enunciação comuns ou, até mesmo, cotidianas, e a impressão que nos passa Demétrio é que tal figura poderia ser utilizada tanto por oradores quanto por quaisquer outras pessoas. E é nesse contexto que o autor aponta para sua aplicação a um gênero de discurso específico, o diálogo, ou, mais precisamente, o diálogo socrático, cujo sucesso estaria, então, garantido por seu caráter mimético, sua evidência e, sobretudo, pela magnânima advertência que contém, a qual nada mais é do que o próprio discurso figurado. 

 

3 - Retórica, medicina y filosofía. El arte de la conducción en la metáfora del camino enFedroCOLOMBANI, María Cecilia (Universidad de Morón / Universidad Nacional de Mar del Plata / UBACyT)

El proyecto de la presente comunicación consiste en relevar algunos aspectos del arte retórico rastreados en la selección de pasajes de Fedro, a partir de considerar ciertos tópicos de la relación entre retórica, filosofía y medicina. Nos proponemos indagar en qué medida las tres constituyen formas de saber que se pueden, de alguna manera, considerar “artes de la conducción”, ya que delinean un cierto camino, un méthodos, de pautas claras y propias de sus respectivos objetos de estudio. Cada una de ellas posee una determinada arquitectura epistémico-discursiva donde se leen claramente las condiciones de posibilidad de alcanzar, desde sus respectivos topoi, espacios, la verdad como fin último. A su vez, los tres saberes permiten, desde sus respectivos andamiajes, trazar la línea que delimita territorialidades, distinguiendo las características del buen y del mal orador, las notas del verdadero filósofo frente a las de aquel que pretende usurpar su lugar y las líneas divisorias entre el buen médico y el que no lo es. Los tres campos, retórica, medicina y filosofía, son tres oportunidades para la tarea crítica de distinguir lo verdadero, alethes, de lo aparente, pseudes. Asimismo, si enfatizamos  la relación entre retórica y filosofía, asistiremos a la mutua implicación de ambos saberes, en particular, a la dependencia de la retórica de los lineamientos que la filosofía dibuja desde su estatuto epistémico. Es quizás, esta dependencia la que determina el escenario de la buena retórica y de esa relación, Fedro es un exponente emblemático.

 

4 - O paradigma na República de Platão como instrumento persuasivo. SILVA, Diogo Norberto Mesti da (FCJ-UFMG)

O objetivo desta comunicação é aprofundar o estudo do uso filosófico que Platão faz das imagens na República. Sabendo que Platão faz uso de imagens, quando pensa na imagem (eidólon) da justiça, no livro IV; uso de símiles (eikónes), quando fala do símile do bem, no livro VI, e do símile dos prisioneiros, no livro VII; de retratos sombreados (skiagraphein) em referência aos sofistas e poetas e, também, de paradigmas da cidade boa (paradeigma), tentaremos explicar qual é o papel epistemológico e retórico do paradigma nesta obra e como ele se articula com outras estratégias  para persuadir o leitor das teses defendidas ali. Assim, daremos enfoque ao papel conceitual que os paradigmas desempenham na República, além de tentarmos sustentar que existe uma a relação dos paradigmas, que se espalham pela República, com as afeções (pathemata) do entendimento e do pensamento. As perguntas a serem respondidas são as seguintes: o paradigma poderia ser o responsável por estabelecer uma ponte entre as afecções a alma? Qual é a relação entre paradigma e ideia? O paradigma é a mesma coisa que a ideia ou é um uso filosófico da ideia? 

 

 

Sessão de comunicação 27

 

1 - A arte retórica entre o persuadir e o convencer. LIMA, Marcos Aurélio de (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN)

Este artigo apresenta um breve estudo sobre três conceitos – arte, persuasão, convencimento – examinando como estes se relacionam entre si na construção de um sentido de retórica.   Nesta perspectiva, aborda ideias de alguns autores (Aristóteles, Rebou, Reale, Perelman, entre outros) comparando-as e identificando possíveis dissonâncias (e consonâncias) entre tais pensadores e suas formulações para os termos aqui demarcados.  Também põe em foco a discussão acerca da existência (ou não) de uma retórica zero, tendo em vista os diferentes graus de persuasão presentes em áreas diversas do conhecimento.

 

2 - La metáfora dialógica, nómada entre la estética ritual y la estética crítica. OÑATE,Lorena Marisol Cárdenas (FLACSO Sede Ecuador)

La estética, entendida como esa capacidad y derecho humano de comunicación creativa genera saber, emoción, acción y persuasión desde diversas retóricas. Uno de los continentes-contenidos con mayor capacidad creativa actual es la condición metafórica compleja. La metáfora, desde su semiosis cognitiva-emotiva-creativa, posibilita ingresar a sentidos simbólicos de amplia representación, donde lo dialógico es parte nodal de su corporeidad; presente inclusive en su identidad, en tanto, este proceso de comparación requiere de un segundo componente, que hace de “interlocutor”. Esto permite procesos de traducción a partir del desplazamiento enunciativo referencial en nuevos espacios imaginarios. La manera como las producciones del arte actual tejen memorias, vivencias, actuaciones interpela a la  gestación de sujetos críticos en procesos de constante re-creación. Asumimos la metáfora dialógica a partir de relaciones entre cosmovisión y creatividad, retomando a Bajtín, la traducción intersemiótica de Lotman y otros semiotistas como Peirce para proponer un modelo de análisis del arte actual. El diálogo es parte constitutiva del sentido y está presente en cualquiera de los grupos de pertenencia socio-histórico culturales, identitarios, de  género, clase, etnia, gustos. Ejemplificamos con escenarios diversos entre comunidades artísticas de México y Ecuador, para evidenciar que la  producción metafórica genera políticas de habitar el mundo.

 

3 - Modelos e metáforas na compreensão do direito. PARINI, Pedro (UFPB/UFPE)

Parte-se de uma perspectiva retórica com o objetivo de indagar acerca da pertinência de se estabelecer, mais do que simples cânones interpretativos, paradigmas epistemológicos hermenêuticos e/ou argumentativos e seus correspondentes modelos teóricos que legitimem o trabalho de produção do direito, em especial no que se costuma chamar de “aplicação normativa”. Pretende-se avaliar se a manipulação do direito está atrelada a uma epistemologia ou a uma retórica, ou ainda a uma possível, mas improvável, epistemologia retórica da metáfora. Propõe-se uma crítica à concepção cientificista da teoria do direito que parece não desistir da ideia de que a legitimação da atividade jurídica de aplicação normativa depende do estatuto epistemológico das teorias que, além de descreverem-na, teimam em prescrever regras para o seu correto funcionamento. Essa crítica não se aplica apenas às perspectivas positivistas da teoria jurídica, mas também às concepções pós-positivistas que, mesmo ao procurarem superar as limitações metodológicas do positivismo lógico da primeira metade do século XX, ainda consideram pertinente à noção de epistemologia na teoria do direito, mesmo que a partir de novos paradigmas, como o hermenêutico e o argumentativo.

 

4 - Racionalidade retórica e argumentativa. MARSILLAC, Narbal de (UFPB)

O fracasso de uma concepção de racionalidade do tipo demonstrativa em lidar com problemas mais concretos e cotidianos, questões éticas e políticas, desconsiderando características de um auditório específico a quem são dirigidos os discursos, suscitou, recentemente, o reaparecimento de um tipo de concepção de racionalidade que traduz bem aquele processo que outrora Granger intitulou de metamorfoses da razão; o resultado é um maior espaço dado à argumentação, o que apenas ratifica o que Perelman e outros autores contemporâneos passaram a chamar de reabilitação da retórica. O presente trabalho visa acompanhar esta relegitimação da antiga arte da persuasão, até bem pouco tempo esquecida das preocupações dos filósofos, e como esta mesma retomada se configura num verdadeiro resgate da racionalidade retórica e argumentativa.

 

 

Sessão de comunicação 28

 

1 - Modelos. CARVALHO, Maria do Socorro Fernandes de (UNIFESP)

Modelo é um conceito nuclear no universo da poesia de imitação, sistema discursivo que definiu a composição de poemas, modo operante na poesia românica até meados do século XVIII. Por esse sistema, as artes do domínio da palavra reproduzem regras para a utilização de componentes como princípios, procedimentos, usos e tópicas de autores modelares, segundo cada gênero de discurso. Não obstante sua presença nos manuais retóricos há uma polissemia de termos de artes poéticas e artes retóricas gregas e latinas para os quais a tradução da palavra “modelo” em língua portuguesa poderia aplicar-se, tais como: /auctoritas, krisis/; /exemplum, paradeigma/; /quaestiones infinitae, tesis/; /typus, typos/; /imaginem, eikos/. O objetivo desta comunicação é expor, ao auditório do congresso, resultados, ainda que parciais, de uma pesquisa acadêmica a que dou andamento, cuja meta é localizar no universo das retóricas circulantes no século XVII, especificamente em Portugal e na Espanha, qual ou quais termos retóricos antigos tiveram sua apropriação moderna na noção de “modelo”.

 

2 - Retórica: Copia rerum copia verborum nas Institutio Oratoria, de Quintiliano e no De copia de Erasmo. PINTO, Fabrina Magalhães (UFF/Polo Campos dos Goytacazes)

Analisa-se aqui o emprego dos conceitos copia rerum copia verborum explorados cuidadosamente por Quintiliano no livro X das suas Institutio Oratoria. O autor romano empregara a copia num contexto de dualidade entre as coisas (res) - associada ao cultivo da inventio - e as palavras (verba), sendo a elocutio o seu domínio. Ainda que com campos diferenciados e independentes, a combinação entre a copia rerum e a copia verborum era fundamental para a realização de um bom discurso. Identificamos algumas congruências entre o pensamento de Quintiliano e a abordagem pedagógica desenvolvida por Erasmo de Rotterdam em seu De copia verborum ac rerum, de 1512. Tal salto histórico se justifica pelo próprio Erasmo ainda no prefácio de seu manual, ao afirmar que se dedicara mais à análise da copia verborum porque Quintiliano pouca atenção lhe dera em sua Institutio, privilegiando a res. Para o humanista, o cuidado com as palavras era parte fundamental do discurso, devendo ser tratado com mais destaque. Erasmo, contudo, com seu apuro filológico, já enfatizava a importância de que as palavras fossem conhecidas em sua natureza própria, em sua semântica fluida, devendo ser historicizadas, cabendo ao aluno ou ao mestre perceber se a linguagem antiga poderia ser utilizada em seu tempo e de que forma.

 

3 - Análise do “Elogio al Sr. Obispo de Córdoba, Fray Mamerto Esquiú, O.M." (1896), de Rubén Darío. FIORUSSI, André (USP)

O trabalho propõe uma leitura retórico-poética do “Elogio al Sr. Obispo de Córdoba, Fray Mamerto Esquiú, O.M." (1896), escrito pelo poeta modernista nicaraguense Rubén Darío (1867-1916) para uma leitura pública na cidade argentina de Córdoba. Sem deixar de ostentar os caracteres próprios das poéticas do fim do século XIX, o poema atende a tradicionais prescrições do gênero encomiástico para armar um discurso que funciona como adequada comemoração de um herói pátrio celebrizado por suas qualidades oratórias e, ao mesmo tempo, como exibição pública das virtudes daquilo que se identificava com uma nova poesia em espanhol. O ponto de partida para a leitura será a postulação de que o elogio de Darío pode, como texto panegírico, ser analisado em exórdio, demonstração e epílogo. Uma vez estabelecida essa divisão, viabiliza-se a identificação e o agrupamento dos procedimentos principais da invenção, com os quais se torna possível encontrar no poema sentidos ainda pouco explorados e talvez inesperados no contexto dos estudos do modernismo hispano-americano.

 

4 - Organização retórica nos discursos ruianos. MACHADO, Fernanda da Silva (UNEB)

Este trabalho procede ao rastreamento de aspectos retóricos presentes no Volume 15, Tomo 1 (Trabalhos Diversos,1888) de Rui Barbosa, em textos referentes à abolição do regime escravocrata – os discursos Aos Abolicionistas Baianos e Homenagem ao Ministério Dantas e o artigo A Lição da Hora. Este estudo traz o Rui Barbosa não em sua dimensão individual, subjetiva, mas em sua dimensão metafórica, um Rui compreendido não só como repositório de uma corrente de ideias de uma época, mas também de um manejo argumentativo delas. A argumentação aqui, neste estudo, foi vista como algo que se inscreve nos de argumentação que, por sua vez, compreenderia uma articulação entre os atos de: promover, envolver e engajar (OSAKABE, 1979) em que o orador, visto sob a ótica dos estudos de Chaïm Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca (que fizeram um exaustivo levantamento de estratégias argumentativas em sua Nova Retórica (2005)), executa esses três atos ciente de que  eles são uma força conjunta para o convencimento e/ou persuasão e, a fim de obter o seu intento, ele admite que tem que recorrer à manipulação da linguagem, por meio de recursos de presença

 


Sessão de comunicação 29

 

1 - A Argumentação retórica e não retórica no discurso do voto da Ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie. SOUKI, Jacqueline Diniz Oliveira (Faculdade De Direito Padre Arnaldo Janssen)/SANTOS, Lúcia Helena dos (Faculdade De Direito Padre Arnaldo Janssen)

Este estudo tenciona analisar a estrutura retórica e não retórica de determinado voto da Ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie. Por conseguinte, o nosso trabalho poderá mostrar a indispensabilidade da boa argumentação, tanto retórica quanto não retórica (com o domínio de suas técnicas) pelo magistrado, responsável por decidir de acordo com a justiça e a equidade os casos a ele apresentados. Dessa forma, pergunta-se: encontramos a argumentação num voto jurídico? Como um Ministro Relator da Máxima Corte utiliza a argumentação em seu voto para ter a adesão de seus pares à sua ótica no caso concreto? Nossos objetivos principais foram levantar os aspectos mais relevantes da argumentação jurídica e da arte retórica nesse contexto através da teoria já sedimentada acerca do assunto, bem como identificá-los em alguns trechos do texto apresentado para comprovação de sua importância. A seleção de um acórdão entre tantos que pesquisamos deu-se pelo conteúdo apropriado para a análise, como também pelo excelente texto da Ministra Ellen Gracie. Após a escolha do texto, partimos para a pesquisa de alguns teóricos que tratam do tema argumentação. Dentre eles, citamos: Voese, Fetzner e Mendes.

 

2 - Nos anais da história: um estudo sobre o discurso histérico em processos-crime. PEREIRA, Helder Rodrigues (UNIPAC)

Em processos-crime, um discurso predomina: o discurso de mestria. Ao discursar, o mestre aciona, no campo do outro, um saber que, nos dizeres de Lacan (1969-1970 [1992]), só pode se manter ao recalcar sua falta-a-ser. O mestre que discursa para lograr produzir um criminoso pela via do logosmantém igualmente sob recalque sua falta. Ora, como não há mestre que sustente o seu discurso de forma imperiosa, urge que outro discurso apareça: o discurso histérico. Este é o que se defronta com a verdade do mestre e lhe aponta as fragilidades. A histericização do discurso é vista, pois, como uma possibilidade argumentativa a fim de fazer mover as verdades no interior do discurso jurídico. Quando Perelman e Tyteca (2005) demonstram os topoi como estratégias de persuasão, podemos compreendê-los em uma certa dimensão do discurso de mestria que se manteria soberano, não fosse uma voz a propor uma outra compreensão possível daquilo que se constrói no discurso sobre o crime e as cidades. Rompendo a harmonia urbana do discurso organizado, o discurso histérico se comporta como marginal. Assim considerando, nossa proposta é apresentar um estudo sobre a análise discursiva de processos-crime, evidenciando o embate entre mestre e histérica que, aqui, são postos como opostos a se confrontarem na formação de uma verdade sobre o sujeito e a cidade.

 

3 - Do desacordo conversacional ao desacordo argumentativo: as estratégias retóricas utilizadas pelos participantes de uma audiência de conciliação do PROCON para defender os seus pontos de vista. ARRUDA, Luciana Martins (UFMG)

No entendimento de Plantin (2008), na conversação comum, existe uma “preferência pelo acordo”. Em princípio, o interlocutor se alinha com o locutor; dado que o acordo é ponto pacífico, basta uma observação linguística como, por exemplo, um “sim”, um “ahã” ou o simples fato de balançar a cabeça. Porém, no caso de uma audiência de conciliação, definida como um encontro face a face regulado por processos contestatórios abertos nos quais os participantes expõem e defendem o seu ponto de vista, o que está em jogo é modo como cada um deles argumenta em prol de si. Nessas situações, por mais que os representantes do PROCON busquem firmar um acordo entre as partes, o que se verifica são cenas de desacordo e de conflito, isto é, tentativas de um dos interlocutores de tomar a palavra e recusa do outro em cedê-la, o surgimento de inúmeras sobreposições entre turnos de fala, a aceleração da elocução, a elevação do tom de voz etc. Essas cenas foram identificadas na audiência de conciliação intitulada “Ok Veículos”, na qual o consumidor recorreu à instituição porque se sentiu lesado nos seus direitos ao efetuar a compra de um carro usado em um estabelecimento comercial.

 

4 - A Retórica do Tribunal do Júri. PAULINELLI, Maysa de Pádua Teixeira (Rede Pitágoras)

Neste trabalho, propõe-se uma reflexão sobre a natureza retórica do discurso judicial do Tribunal do Júri, no qual acusação e defesa lançam suas teses na tentativa de alcançar a adesão de um auditório particular, representado pelo Corpo de Jurados. Esse jogo se desenrola no interior de uma instituição que dita regras quanto à condição de quem pode desempenhar o papel de jogador e quanto ao próprio funcionamento da partida. Dessa forma, a palavra é prerrogativa do Juiz de Direito, do Promotor, do Advogado e de determinados colaboradores da justiça. Ao réu, só é permitido se manifestar pessoalmente em momentos processuais bem específicos. Como a verdade factual não é dada previamente na situação processual, e talvez não seja alcançada nem mesmo ao final do julgamento, as atividades de acusação e defesa tomam corpo em um ritual retórico em que, na falta de uma demonstração rigorosa, a única alternativa possível para as partes é buscar tudo o que seu ponto de vista comporta de verossímil. Para a instância julgadora, cabe o encargo de acatar uma ou outra tese. Com isso, constrói-se uma nova versão para os fatos, que adquire valor de verdade graças à força da instituição judiciária.

 

 

Sessão de comunicação 30

 

1 - Discurso religioso: o poder da persuasão nos discursos de pastores pentecostais e neopentecostais. SANTOS, Juliana Couto (UFOP)

Este trabalho pretende analisar os recursos retóricos mobilizados pelos líderes de igrejas pentecostais e neopentecostais visando persuadir seus fiéis. Este trabalho apresenta alguns aspectos da pesquisa “Práticas discursivas em programas de religiões neopentecostais: argumentação e identidades”, desenvolvida na IC na UFOP. Nesta comunicação, será alvo de nosso olhar, em uma interface da Análise do Discurso e dos estudos de Retórica, discutir como esses recursos despertam as emoções e paixões de seus auditórios e, dessa forma, conseguem congregar milhares de fiéis, sujeitos advindos de experiências e até países diferenciados, mas que compartilham um mesmo espaço e as mesmas crenças. Para atingir esse objetivo, serão analisados os discursos de dois líderes extremamente eficientes na eficácia da persuasão, os pastores Edir Macedo e Silas Malafaia, que constroem umethos que afirmam se distinguir dos demais líderes religiosos, por se dizerem detentores da verdade e se sentirem na obrigação de transmiti-la. Para isso, tomaremos como base as práticas discursivas nas quais estes pastores estão envolvidos: programas de rádio e TV; jornais específicos de suas igrejas, bem como seus blogs pessoais.

 

2 - Ethos e pathos na dispersão da ética hebraica do ocidente: valores retóricos naTefutzahMIRANDA, Cristia Rodrigues (Centro Universitário Newton Paiva)

Neste trabalho, é nosso objetivo refletir e analisar qual a relação entre a formação do ethos social e do orador a partir de um auditório universaldispersados nas diferentes vozes midiáticas, e os discursos éticos hibridizados no domínio discursivo jornalístico. Partiremos da hipótese de que, para construir determinadas identidades sociais, o ethos discursivo social se ancora em discursos éticos hebraicos, herdados da moral judaico-cristã. Esses discursos, conforme se observa, teriam a propriedade de se dispersar, fundando discursos sociais políticos, midiáticos, que, a nosso ver, são ancorados em um ethos retórico que tem a pretensão de validade universal, fundando um suposto auditório, cuja ancoragem de valores, supostamente, herda discursos éticos de herança hebraica. Para verificar a nossa hipótese, utilizaremos um corpus formado por três textos jornalísticos, de três suportes midiáticos distintos entre si. Valeremo-nos das teorias de Amossy (2008), para quem oethos social é uma categoria não apenas discursiva, mas semântico-pragmático-discursiva, nela podendo serem evidenciadas as Identidades Sociais, conforme o conceito explicitado por Charaudeau (2005). Para analisar as questões referentes ao auditório universal, valeremo-nos dos conceitos de Perelman (2008), para quem o auditório universal é uma construção do orador e é uma re-apropriação do auditório particular.

 

3 - Entre a banalização e o status quo: disputas retóricas em torno do savoir fairejornalístico. LOPES, Fernanda Lima (UFRJ)

Para entender melhor os caminhos que o jornalismo e a profissão de jornalista têm traçado na contemporaneidade, é imprescindível prestar atenção a disputas retóricas em torno do savoir fairejornalístico. Os primeiros anos do século XXI correspondem a um período que muitos autores classificam como uma “crise” para o jornalismo e para os jornalistas. Nesse contexto, momentos como o debate sobre o fim da obrigatoriedade do diploma para esse exercício profissional e as discussões sobre novas diretrizes curriculares para o curso superior nessa área são arenas em que o saber do jornalista é posto em questão, com argumentos que ora levam à banalização de certas tarefas e prerrogativas dessa atividade, ora representam esforços intensos para a manutenção de um certostatus quo profissional. Os estudos retóricos contribuem de modo ímpar para entender nuances acerca das configurações de disputas nesse sentido, além de promover reflexões sobre a construção da identidade desses agentes no espaço social contemporâneo.

 

4 - Relações entre biografias e gênero epidítico. PROCÓPIO, Mariana Ramalho (UFMG)

Nesta comunicação, propomo-nos a refletir sobre as relações existentes entre as biografias e o gênero epidítico aristotélico. Para tanto, faremos uso das contribuições referentes à nova retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca e de Amossy, além dos trabalhos situados no campo da análise do discurso. Nessa perspectiva, as biografias podem ser entendidas, sinteticamente, como a construção narrativa da vida de uma pessoa, a partir do plano de leitura adotado pelo biógrafo. Já o gênero epidítico caracteriza-se, de modo geral, pelo elogio, por meio do qual se visava a constituir uma descrição do caráter e de uma personalidade. Em termos de configuração discursiva, percebe-se, nos dois casos, o emprego de mecanismos de narração e descrição ancorados, sobretudo, nos domínios do estético e do ético para a construção da imagem e da exaltação do personagem sobre o qual se fala. Em síntese, pode-se considerar o gênero epidítico como uma espécie de biografia rudimentar.

 

 

QUINTA FEIRA, dia 30 13h00 às 15h00

 

Sessão de comunicação 31

 

1 - Estácio: poesia e panegírico. LEITE, Leni Ribeiro Leite (UFES)

Estácio, poeta romano imperial, tem como característica de parte de sua produção poética uma certa feição encomiástica que, talvez ultrajante ao gosto moderno, guarda pontos de contato com o panegírico latino, não apenas na temática, de forma mais ampla, mas também em aspectos mais pontuais. Neste trabalho, pretendemos apresentar uma leitura comparada de trechos do Panegírico a Trajano, de Plínio o Jovem e de uma seleção de fragmentos das Silvae de Estácio, atentando para alguns dos elementos essenciais da construção retórica do Panegírico e sua contraparte na poesia laudatória de Estácio. Em especial, buscaremos também observar de que forma a figura do imperador Domiciano é construída em ambas as obras, uma vez que a função de Domiciano em cada um dos textos é bastante diversa.

 

2 - Oratorum ordines: aspectos da estruturação prosopográfica no Brutus. PINI-FERNANDES, Mariana (UNICAMP)

Muitos estudiosos modernos têm-se debruçado no desvelamento da ordo prosopográfica dos oradores descritos no Brutus de Marco Túlio Cícero. Embora sua preceptiva seja retórica, trata-se da única obra de interesse prevalentemente historiográfico desse autor de que se tem conhecimento. O diálogo cita mais de duzentos oradores que figuraram ativamente na vida pública de Roma em um período que compreende desde as Guerras Púnicas até a Guerra Civil. Para a composição dessa obra, Cícero teria tido que enfrentar o trabalho preliminar de rastrear textos de inúmeros discursos para caracterizar adequadamente os oradores do passado. A dificuldade residia principalmente no fato de, até meados do segundo século a.C., a eloquência ser considerada, sobretudo, uma “performance oral”. Uma das teorias mais difundidas a respeito enfatiza a importância das oratorum aetates na construção dessa ordo.  É nosso objetivo analisar de que maneira a aetas é entendida no Brutus e se, de fato, ela serviria de base para cronologia estabelecida na obra.  A importância desse debate deriva do fato de que o Brutus é o primeiro exemplo, que chegou a nós, de uma arte na tradição europeia que se vale da periodização em sua construção narrativa.

 

3 - Asínio Polião nas Declamações de Sêneca o rétor. FRYDMAN, Pablo Schwartz (USP)

Asínio Polião, destacado homem público, orador e poeta, é personagem recorrente nas declamações de Sêneca o rétor. Apesar de não ser um declamador de escola e criticar aspectos do uso epidítico da declamação (Cf. Sen. Contr. IV praef. 2), a antologia senequeana o apresenta exercendo funções similares às de um rétor na educação de seu próprio neto. Também aparece realizando comentários técnicos sobre o desempenho de vários declamadores ou propondo sentenças e cores em diferentes controvérsias.  O objetivo do presente trabalho é estudar suas variadas formas de participação no âmbito declamatório. Suas intervenções no mundo retórico escolar, bem atestadas por Sêneca, revelam tanto as resistências que o gênero declamatório despertava em oradores reconhecidos, quanto a progressiva legitimidade social que esta prática alcança nas primeiras décadas do principado.

 

4 - Outra fonte grega para o estudo das três figuras (léxis, diánoia, lógos). MARTINHO, Marcos (USP)

Já no séc. I a.C., nos textos de retórica gregos e latinos, a exposição das figuras é dupla: figuras de palavra e figuras de entendimento (skhémata léxeos e skhémata dianoías / figurae uerborum e figurae sententiarum), e essa distinção binária perpetua-se pelos séculos seguintes. Quatro textos, porém, divergem dos demais, por dividirem as figuras em três, distinguindo, além das duas anteriores, as figuras de oração (skhémata lógou /figurae orationis); são eles: o Perì skhemáton do Ps.-Herodiano, as Explanationes in Rhetoricam M. Tullii Ciceronis de Mário Victorino, a Ars rhetorica de Consulto Fortunaciano, o De schematis lexeos e De schematis dianoeas do Ps.-Júlio Rufiniano. Por isso, tais textos chamaram a atenção dos especialistas que se dedicaram ao estudo das doutrinas antigas das figuras, entre outros, de F. Striller (1886: 53-5), W. Barczat (1904: 23-6), K. Barwick (1957: 88-111), D. M. Schenkeveld (1991: 150). Na minha comunicação, pretendo demonstrar que, além dos referidos textos, há ainda um quinto, em que se distinguem três, e não só duas espécies de figuras, o qual foi preterido pela crítica moderna.

 

 

Sessão de comunicação 32

 

1 – Figuras de linguagem: a retórica da imagem no ensino do texto clássico. MOREIRA, Andreza Sara Caetano de Avelar (UFMG/CNPq) 

A partir da leitura em grego da Ilíada, observando as fórmulas usadas por Homero, as figuras retóricas empregadas com maior frequência e as imagens literárias criadas pelo bardo, tratamos o texto como figuras e sons, e não apenas como letras. Buscamos preservar os detalhes imagéticos que se perdem no processo tradutório. E, embora os clássicos tenham sido transpostos em quadrinhos muitas vezes, ousamos nos dedicar à forma poética, mais que ao conteúdo, a fim de demonstrar a capacidade visual da poesia épica dos antigos. Muitos tratados modernos de retórica abordam as figuras de linguagem como um componente meramente estilístico. O uso das figuras retóricas é inerente à própria língua e, por consequência, à literatura e ao texto escrito, independentemente da sua função comunicativa. Nesse contexto, nosso objetivo é o de analisar sistematicamente as figuras retóricas presentes na Ilíada, observando o modo como tais figuras nos foram transmitidas, e elaborar um material que aporte, sobretudo, informações retóricas visuais, com linguagem acessível, mas não facilitada, a fim de que seja utilizado nas escolas de Ensino Fundamental e Médio e, também, no Ensino Superior. Pretendemos a conjugação texto-imagem como um processo pedagógico que combina ambas as coisas, promovendo uma reescrita – ou reilustração – do texto literário, e que proporcione aos leitores de idades distintas uma visão diferenciada tanto das HQs como de Homero.  

 

2 - A história de vida como uma estratégia política - análise da dimensão argumentativa no manual escolar “Getúlio Vargas, o amigo das crianças”. ABREU-AOKI, Raquel (UFMG / Newton Paiva)

As escolas, durante o Estado Novo, período compreendido entre 37-45, serviram como um dos locusprivilegiados para a propagação dos ideais do movimento político-nacionalista da “ditadura Vargas”. Nesse espaço educacional, circularam muitos materiais apologéticos que exaltavam a imagem do presidente Getúlio Vargas e propagavam o seu regime. Entre eles, escolhemos o livreto biográfico “Getúlio Vargas, o amigo das crianças” como recorte para a análise desta pesquisa. Nosso objetivo é uma tentativa de mostrar que tal livreto era utilizado, aparentemente, como um material didático e tinha, portanto, uma visada instrucional da ordem do fazer-saber, porém, em um segundo plano, por meio de um exame mais detalhado, foi possível perceber que sua dimensão era da ordem argumentativa e apontava para um fazer-crer, um fazer-fazer e um fazer-ser. Ao contar a história de vida do presidente Getúlio Vargas, o seu caráter impecável e seus admiráveis feitos, tal instrumento colocava a imagem do estadista em evidência e se transforma em uma espécie de “siga o modelo”, elaborando um padrão identitário, aspirado pelo Estado, para o cidadão brasileiro, “um povo novo para um Estado Novo”. Estudamos tais táticas por meio da teoria semiolinguística e modos de organização do discurso de Patrick Charaudeau.

 

3 - A retórica da autoajuda: contribuições no discurso pedagógico da atualidade? CELUSSO, Silvia do Socorro (ISEAC)

Este estudo objetivou investigar os significados, atribuídos por professores, à literatura preferida e indicada para um professor novato, constatando que 50,81% responderam que os livros de autoajuda são os que melhor os orientam e os auxiliam nas práticas diárias, diante das dificuldades atuais no contexto escolar. Estas obras organizam-se em torno da narrativa “acredite que você pode mudar sua vida e isso se concretizará”, constituindo um gênero literário em que seus autores indicam um conjunto de práticas articuladas para o alcance do sucesso pessoal e profissional. Para as análises dos discursos das obras citadas, recorremos à Retórica como instrumento metodológico. Os resultados permitiram identificar técnicas argumentativas utilizadas pelos autores desse segmento literário que pertence ao Gênero Epidítico, pois louva e censura valores defendidos por diferentes auditórios, atendendo assim às demandas dos leitores segundo seus valores, crenças e atitudes. Também permitiu identificar a existência de uma divisão nítida desses livros segundo o gênero de suas audiências: masculino e feminino. A divisão encontra-se expressa nas imagens das capas dos livros, segundo a representação de gênero. As regras e normas de conduta estão ancoradas em operadores éticos diferentes: cuidar, no caso das mulheres; e, no caso dos homens, aplicar as regras do jogo.

4 - Retórica, a ciência da educação. MAZZOTTI, Tarso (UNESA)

O autor examina o problema da cientificidade da Educação, que é o mesmo de qualquer ciência: o da validade da indução segundo das regras do modus tollens. Estas não solucionam por inteiro o problema da validação, pois as premissas de seu silogismo sustentam-se em modelos, os quais são objetos de disputas eventualmente resolvidas na negociações de seus significados, que ocorrem nas situações sociais retórica e dialética, das quais resultam os conhecimentos organizados para fins de exposição (didascália). Para o autor, as técnicas retóricas, dialéticas e lógicas (analíticas) constituem as condições necessárias para a produção e exposição de conhecimentos científicos. Recorda que há dois tipos de ciências: as construtivas e as reconstrutivas. O autor inclui a Retórica dentre as ciências reconstrutivas e sustenta que esta examina os limites do axioma modal comum às artes retóricas, às educativas e às poéticas: é possível modificar as crenças, valores e atitudes, objeto comum daquelas artes. Logo a ciência constituída para tratá-lo, a Retórica, também é a ciência das práticas educativas.

 

 

Sessão de comunicação 33

 

1 - Gorgias entre rhétorique et philosophie. TORDESILHAS,  Alonso (Université d’Aix-Marseille)

De Gorgias, nous possédons un traité philosophiquement important Sur le non-être et deux discours épidictiques, l’Eloge d’Hélène et la Défense de Palamède. Si l’accent est mis sur le premier, Gorgias apparaît comme un philosophe s’occupant du problème de l’être et de la connaissance et donc atopique par rapport aux sophistes qui, auraient, dit-on, abandonné les recherches physiques pour se tourner vers l’homme. Si l’accent est mis sur les déclamations, Gorgias cesse d’être philosophe et peut être rangé dans le genre de la littérature et des théories littéraires comme l’un des fondateurs de la rhétorique. De nouveau, atopique par rapport au portrait classique du sophiste de Platon. Isocrate accentue les difficultés en présentant l’Hélène comme relevant du sérieux et le Sur le non-être comme futile. Affronter le problème de la convergence entre la tradition « philosophique » et la tradition « rhétorique » requiert de dégager d’abord la portée philosophique des deux déclamations. La communication s’attachera ce faisant à définir « l’art de Gorgias », pour montrer en quoi, entre philosophie et rhétorique, le choix n’est pas exclusif. Gorgias-philosophe ou Gorgias-rhéteur ? L’alternative ne vaut pas. Reste, irréductible, « Gorgias sophiste ».

 

2 - Retórica e Política no Elogio de Helena de Górgias. RIBEIRO, José André (IFBA)

O propósito deste trabalho é propor uma interpretação política da retórica gorgiana, a partir da qual seja possível identificar, no Elogio de Helena, uma psicagogia, que coloca o orador em uma relação de poder com o ouvinte por meio da utilização discurso. Para tanto, compreende-se que o discurso é um modo de encantamento, que a conduz por meio de uma modificação da opinião do ouvinte, pois o orador persuade o público, faz com que eles mudem de opinião, leva-os a uma ação determinada: quem é hábil na retórica é capaz de persuadir o ouvinte a fazer o que o discurso determina, de situar a sua ação em um plano em que o orador ordena. Por isso, pretende-se mostrar as implicações políticas do pensamento de Górgias, principalmente tendo como pano de fundo a democracia ateniense, na qual a retórica tem um papel fundamental como mecanismo político. Nesse sentido, a definição do discurso como um soberano, tem ressonâncias na função da retórica no âmbito da pólis, percebendo seu poder e sua eficácia: o domínio do discurso é o que determina quem governa e quem obedece. Portanto, procura-se provar que Górgias promove uma negação da democracia por meio de uma teoria aristocrática do lógos.

 

3 - O método analógico entre retórica e filosofia: uso e desenvolvimento do paradigma médico entre Górgias e Platão. MARINO, Silvio (USP)

O objeto dessa comunicação é a análise do uso do paradigma médico que a retórica gorgiana antes e a filosofia platônica depois atuam. Na virada dos séculos V e IV a.C. retórica, sofística e filosofia platônica estão à procura de um paradigma que permita individuar e analisar os processos da troca linguística, considerada como veículo da mutação psíquica. Mesmo para individuar tais processos “invisíveis” a medicina é utilizada como analogon, pois também ela tem que explicar processos fisiológicos invisíveis. O uso dessa analogia que Górgias faz no “Elogio de Helena” antecipa a mais precisa conceituação platônica, presente em vários diálogos, como no “Fedro” e no “Protágoras”. E é mesmo nesse último texto que a analogia estabelecida por Platão entre medicina e filosofia se torna mais interessante por causa do aprofundamento desse paralelo: considerar a arte de falar sub specie medicinae determina neste diálogo uma estruturação dos objetos mesmos da filosofia e dos processos psíquicos e políticos. O propósito desta comunicação é mostrar de qual maneira e em que a medicina determine esta estruturação.

 

4 - De Cultu Hortorum: Um canto V das Geórgicas? SANTOS, Gilson José dos. (UFMG)

Marco Fábio Quintiliano, no livro X da Institutio Oratoria, enumerou os mais destacados escritores gregos e latinos e classificou-lhes as obras segundo o gênero literário a que pertenceriam. Para ele, os tratados de caráter didático se filiariam à literatura filosófica. No gênero didático, encontram-se as Geórgicas de Virgílio e De Re Rustica de Columela. No prefácio do livro X (De Cultu Hortorum), Columela revela que pretendia escrevê-lo em prosa, mas Públio Silvino, a quem dedica a obra, pediu-lhe que o escrevesse em versos. A solicitação pode ter sido motivada por estes versos das Geórgicas (IV, vv.148-149), a que Columela se refere na livro: “Verum haec ipse equidem spatiis exclusus iniquis/praetereo atque aliis post me memoranda relinquo.” Virgílio, ao falar das abelhas (o canto IV é dedicado à apicultura), disse que deveria tratar, também, das hortas e dos jardins. Isso, porém, não seria possível naquele momento; a outros poetas, então, deixava a honrosa tarefa. Columela retoma o assunto que Virgílio deixou a outros poetas. De fato, o livro X foi idealizado como um complemento do canto IV das Geórgicas. Nesta comunicação, analisaremos os usos retóricos de citações de versos das Geórgicas no De Cultu Hortorum, cujos efeitos pretendemos investigar na dissertação.

 


Sessão de comunicação 34

 

1 - Os discursos bélicos na literatura medieval do início do séc. XV. REBELO, António Manuel Ribeiro (CECHFL/Coimbra)

As guerras de Ceuta e de Tânger propiciaram, tanto na literatura portuguesa, como na literatura latina, discursos profundamente influenciados quer pelos códigos semântico-pragmáticos da época em que se integram, quer pela tradição retórica clássica. Estão em análise os feitos gloriosos dos infantes de Avis, relatados por Zurarana, crónica da Tomada de Ceuta, e expostos na versão latina do De Bello Septensi de Mateus de Pisano, bem como os da malograda expedição contra Tânger, nos relatos do biógrafo português de D. Fernando, Fr. João Álvares, seu secretário e companheiro na prisão de Fez, e nos do autor anónimo latino. O Infante D. Henrique, Mestre da Ordem de Cristo, é uma personalidade comum aos dois acontecimentos cuja intervenção e intrepidez têm a sua justificação em razões históricas. A evidência do seu protagonismo em várias crónicas, bem como o teor de alguns dos seus discursos em situações mais dúbias fundamenta-se nas tensões sócio-políticas da época e no papel que terá tido na produção de algumas dessas mesmas obras.

 

2 - “E d’aí o feito era maior”: a descrição de mouros, negros e suas terras a serviço da memória avisina na Crônica da Guiné. GUIMARÃES, Jerry Santos (UESB)

Objetivamos demonstrar que Gomes Eanes de Zurara, segundo cronista-mor português, fez uso de técnicas retóricas para descrever, caracterizar e hierarquizar mouros e negros, bem como suas terras, na Crônica da Guiné (século XV). A partir dos lugares-comuns utilizados para a descrição das paisagens, Zurara nos apresenta a “terra dos Negros” como um locus amoenus e a “terra dos Mouros” como um locus horrendus. Assim como a “terra dos Mouros” é inferior à “terra dos Negros”, o mesmo ocorre com relação aos seus habitantes: os mouros azenegues seriam, segundo Zurara, fracos, lentos, covardes e falsos, ao passo que os negros da Guiné são descritos como fortes, ágeis, valentes e verdadeiros. E assim é que os topoi que respeitam à “natureza” dos homens, principalmente seu sub-atributo “nação”, estão intimamente associados aos lugares-comuns locus amoenus locus horrendus. Embora mouros, negros e suas terras não fossem o interesse principal de Zurara, estes se fazem presentes na Crônica da Guiné como elementos necessários da ação narrada, uma vez que os cristãos portugueses, para obrarem seus feitos memoráveis que redundam no louvor do Infante D. Henrique e do rei D. Afonso V, precisavam de inimigos e campos de batalha que tornassem seus feitos ainda maiores.

 

3 - Realidade e labor retórico na construção da figura de Nun´Álvares Pereira na Crónica da Tomada de Ceuta de Gomes Eanes de Zurara. FIGUEIREDO, Albano António Cabral (Universidade de Coimbra)

Gomes Eanes de Zurara, que foi cronista-mor do reino de Portugal nos meados do século XV, escreveu na sua Crónica da Tomada de Ceuta – espécie de terceira parte de uma “Crónica de D. João I” iniciada e desenvolvida por Fernão Lopes – a gesta cavaleiresca da preparação e concretização da conquista de Ceuta (1415) por D. João I e seus três filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Nela também encontramos um lugar de destaque, embora não cimeiro, para a figura de Nun´Álvares Pereira, condestabre, homem avisado e “político” peculiar. E à boa maneira dos cronistas medievais, Zurara concerta realidade e labor retórico para construir historiográfica e literariamente a personagem e assim renovar e consolidar no terceiro quartel daquela centúria a projecção de uma imagem cavaleiresca e guerreira, mas humana, de um dos mais proeminentes homens do Portugal trecentista e quatrocentista. A comunicação estabelecerá, pois, os elementos essenciais dessa concertação de realidade e labor retórico, tanto no que à matéria e ao discurso diz respeito como no que mais em particular concerne à tessitura eminentemente retórica e estilística. O peculiar trabalho das fontes, o manuseamento incisivo de tópicos e figuras da Retórica e a associação de uma inquestionável dimensão estético-literária ao processo de construção e caracterização serão os enfoques essenciais da análise.

 

4 - Gil Vicente e a retórica medieval. MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (UERJ)

Gil Vicente, considerado o 'criador' do teatro português, foi um grande conhecedor da arte de pregar medieval, que resultou da confluência da retórica clássica com a tradição concionatória judaico-cristã. Chegou inclusive a escrever sermões sérios ou jocosos, mas sempre revestidos de caráter moralizante, como o Sermão de Abrantes, encomendado pela franciscana rainha D. Leonor, 1506. Em seus ‘Autos de devoção”, como denominou as peças revestidas de caráter religioso, demonstrou claramente a utilização das técnicas e da finalidade da prédica, de doutrinação e conversão para uma vida virtuosa. Pretendemos observar, no 'Auto dos Mistérios da Virgem', que se popularizou como 'Auto da Mofina Mendes', re(a)presentado nas matinas do Natal de 1534 ao rei D. João III, os recursos retóricos que aproximam essa ‘moralidade’ vicentina de um sermão, com o intuito de ensinar, de forma agradável, a doutrina e de fustigar os vícios da sociedade do seu tempo e do homem de todos os tempos.

 

 

Sessão de comunicação 35

 

1 - A retórica fabular: Millôr Fernandes e as estratégias argumentativas. MADUREIRA, André Luiz Gaspari (UNEB)

Este trabalho se propõe a analisar o desenvolvimento argumentativo em uma fábula do escritor carioca Millôr Fernandes intitulada “A Galinha Reivindicativa”, presente na obra Fábulas fabulosas, publicada em 1963. Para tanto, serão mobilizados os estudos da Nova Retórica, desenvolvidos por Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca. Mediante esse estudo retórico do corpus, torna-se possível compreender a natureza do discurso de que se vale o orador, a ponto de estabelecer adesão com o auditório ao qual se volta. Assim entra em cena a relação entre os elementos da tríade retórica, imprimindo-se ênfase na propriedade argumentativa que marca o logos. A partir desse jogo de imagens, identifica-se, por meio da análise retórica, de que maneira são mobilizadas estratégias argumentativas a ponto de propiciar a circulação da fábula em um momento de intenso rebuliço sócio-político. Isso proporciona, por sua vez, compreender como a argumentação permite a dissimulação de certos aspectos significativos, tornando-se uma estratégia adequada para a propagação de posições reacionárias, mesmo em uma época de cerceamento de direitos de expressão. Dessa forma, as estratégias argumentativas possibilitam compreender o modo com que a fábula se constitui como um elemento de alerta social, propício a burlar atos de repressão e ecoar no contexto social.

2 - Estratégias argumentativas em A fazenda 4 da Rede Record. SIMÕES, Alex Caldas (Universidade Federal de Viçosa)

O processo de argumentação pode ser entendido por Perelman (1996) como o ato de fornecer argumentos, ou seja, razões a favor ou contra uma determinada tese. Dessa forma, de que maneira a tese “torçam por mim” foi construída pelos participantes do reality show A fazenda 4, exibido pela Rede Record de Televisão em 2011/2? Que tipo de argumentos foram selecionados? Como estes foram organizados? Com base nessas questões de pesquisa, analisaremos um vídeo gravado pelo participante Marlon, da dupla sertaneja Marlon & Maicon, com o objetivo de depreender as imagens de si produzidas pelo próprio participante que favorecem a sua argumentação. Como referencial teórico-metodológico, nos pautaremos nas teorias de argumentação de Perelman (1996) e nas teorias discursivas de linguagem de Charaudeau (2008) e Amossy (2005).  De nossa pesquisa, concluímos que o vídeo, disponibilizado no site da dupla Marlon & Maicon, defendeu a tese “torçam por mim” e se dirigiu prioritariamente aos fãs da dupla. Nesse sentido, Marlon constrói imagens discursivas que se constroem a partir de uma doxa de artista: bom moço, honesto, divertido e de moral elevada.

 

3 - Jesus e seu auditório no “Sermão do Monte”. SILVA, Lucas Nascimento (UNEB)

A argumentação desenvolve-se em função da determinação do auditório, que pode ser o universal, o particular e o constituído pelo próprio locutor, sendo que os dois primeiros estão, respectivamente, ligados às noções de convencimento e de persuasão. De uma forma ou de outra, Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958] 2005, p. 22), em matéria de retórica, preferem definir o auditório como “o conjunto daqueles que o orador quer influenciar com sua argumentação”. Por assim dizer, nesse trabalho, pretende-se compreender, com o aporte teórico da Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958] 2005), a partir da materialidade mateana, quem foi o auditório em função do qual Jesus, personagem do Evangelho de Mateus, desenvolveu sua argumentação no Sermão do Monte (MATEUS, capítulo 5-7), bem como entender como se dá o contato do mestre palestino com seus interlocutores do primeiro século d.C. e como são criadas as condições favoráveis à argumentação em tal discurso. Desse modo, esse artigo se justifica por trazer para a análise retórica um texto religioso bastante conhecido no Ocidente, de um gênero textual eminentemente persuasivo, o sermão.

 

4 - Quem ri de quem?– os níveis de interpretação do cômico da retórica na análise do discurso humorístico. VALE, Rony Petterson Gomes do (UFMG)

O presente estudo tem como objetivo discutir algumas contribuições extraídas da interface entre a Nova Retórica, representada pelo trabalho de Olbrechts-Tyteca (1974) sobre o cômico do discurso, e a análise da mise en scène do ato de comunicação humorístico proposta pela Teoria Semiolinguística. Procurando observar as “ações maliciosas e as reações dos parceiros” (interlocutores) no cômico do discurso, Olbrechts-Tyteca propõe que o cômico pode se situar em diferentes níveis de acordo com a relação entre os auditórios, caracterizando-os como de primeiro ou segundo nível (interlocutores num diálogo), terceiro ou quarto nível (auditórios para os quais a história cômica foi endereçada). Essa diferenciação entre níveis nos levou: i) a perceber um afastamento do auditório de terceiro nível quando da presença de um terceiro no discurso; ii) a refletir a respeito do papel da “personagem anormalmente séria”, que proporciona o surgimento do auditório de nível superior, derivado do de terceiro nível, mas chamado a julgar tal personagem. Essas reflexões fizeram com que revisitássemos nossa proposta de análise do discurso humorístico no que diz respeito ao “tiers”, procurando delimitar melhor as instâncias com as quais esse sujeito “ausente-presente” pode se consubstanciar e, assim, melhor visualizar “quem ri de quem” no discurso humorístico.

 

 

Sessão de comunicação 36

 

1 - Emoção como técnica de experienciação. RAMOS, Patrícia Ferreira (UFOP)/ MENDES, Simone (UFOP)

Esta comunicação tem por objetivo apresentar a relação que a emoção tem com o discurso, no que se refere à experienciação dialogada, nos termos que nos apresenta Auchlin (2008), para quem a "experiência discursiva integra ou funde fluxos paralelos e coocorrentes de dados cognitivos abstratos e dados perceptivos sensório-motores, afetivos, intrassubjetivos, geralmente no quadro de uma interação com outra experiência discursiva" (p. 11). Para refletir sobre a problemática, partiremos da experiência vivenciada em entrevistas com moradores da cidade de Mariana/MG, nas quais eles relatam suas histórias pessoais e suas vivências coletivas na cidade em que nasceram ou moram há mais de 35 anos. No escopo teórico-metodológico, pretendemos trabalhar com a noção de memória discursiva (COURTINE, 1981), além das noções de pathos e de experienciação dialogada, tal como já apontado por nós. Percebemos que o método utilizado, pautado no trabalho com a dimensão patêmica dos entrevistados, mostrou-se importante para promover a aproximação e facilitar a coleta dos relatos. Com essa abordagem, pretende-se, também, contribuir para com o desenvolvimento dos estudos retóricos, na sua interface com a Análise do Discurso, no que tange ao estudo de experienciações dialogadas e dos efeitos de patemização projetados no discurso.

  

2 - O punk encrenqueiro: uma análise discursiva sobre a estereotipia punk nas mídias de informação. CAVALHEIRO, Paulo Henrique Franco (UFOP)

As mídias de informação, consideradas formadoras de opinião, propagam informações estigmatizadas sobre o punk, buscando, em tom de informação aparentemente neutra, alertar os leitores sobre indivíduos supostamente perigosos. Diante disso, pretendemos investigar quais são as diversas estratégias discursivas utilizadas pela mídia para construir a identidade punk, de acordo com um determinado posicionamento e a partir de traços estereotipados que circulam na sociedade. A nossa hipótese é a de que algumas informações veiculadas parecem gerar certo estranhamento no leitor, quando confrontadas com outras notícias que tematizam o mesmo acontecimento. É comum nos depararmos com notícias errôneas ou que trazem uma excessiva vinculação do indivíduo punk com a violência, principalmente nas grandes cidades. Para discutir a problemática, esta comunicação visa, à luz do conceito de imaginários sociodiscursivos, de Patrick Charaudeau (2006), e o conceito de estereótipos, de Ruth Amossy (1997), visualizar a construção e caracterização da identidade “punk”, divulgada pelas mídias de informação, buscando retratar as divergências entre notícias, níveis de “imparcialidade” projetados pelos jornalistas, engajamento e posicionamento sociopolítico do meio midiático.

 

3 - Teoria do Desenvolvimento Retórico. JUNIOR, Ivan Capdeville (UFMG)

O objetivo da comunicação é propor uma abordagem baseada na Retórica Clássica para nortear o planejamento de atividades didáticas de desenvolvimento da oralidade, em especial, cursos de oratória para adultos. Atividades didáticas que visem a desenvolver a oralidade não devem ser baseadas somente na etapa do falar. Entretanto, é o que se observa com frequência nos livros didáticos de português e nos manuais de oratória: prescrições que se restringem a regras sobre a produção textual, com ênfase em leis gramaticais e gêneros textuais. Denominamos tal abordagem de Teoria do Desenvolvimento Retórico. Consiste em incluir  no planejamento do processo de ensino-aprendizagem da oralidade atividades que envolvam o nível linguístico (FALAR), o nível do raciocínio (PENSAR) e o nível da percepção (VIVER). Também faz parte da Teoria a valorização equilibrada dos cinco cânones da Retórica, já que, ao longo da história, diferentes épocas privilegiaram apenas um dos cânones, em detrimento dos demais.

 

4 - Retórica e semiótica cognitiva: aspectos da relação entre atenção e argumentação. MENDES, Paulo Henrique Aguiar (UFOP)

Este trabalho pretende abordar as relações estabelecidas entre atenção e retórica do ponto de vista da semiótica cognitiva (Oakley: 2008). Segundo esse autor, se uma importante generalização pode ser feita sobre a retórica no ocidente, é que a linguagem, falada e escrita, reflete nossa propensão para lidar com ambos os mundos da atualidade e da potencialidade. Cultura e cognição humana co-evoluíram para criar as condições de antecipar o futuro e de recriar o passado, engendrando-os noaqui-e-agora do discurso. A simulação mental imaginativa é uma condição base do self, da cultura e da sociedade, e é uma peça chave do quebra-cabeça da construção de significado. Com efeito, uma longa lista de retóricos concebe o problema do significado como uma questão de modelar o possível. Nesse sentido, tanto a analepse (projetando o passado no presente) quanto a prolepse (projetando o futuro no presente) implicam atenção e memória como determinantes cognitivos fundamentais permitindo a interação dialética entre atualidade e potencialidade. Para Oakley (2008: 190), “captar, focar e sustentar a atenção em sincronia harmonizada define uma dimensão tácita da teoria retórica”. Aristóteles, Perelman-Tyteca, Burke, entre outros teóricos, concederam tacitamente um importante papel à atenção na regulação do discurso. Partindo dessa hipótese de integração teórica entre categorias da semiótica cognitiva e da tradição retórica, em função da investigação de relações entre a atividade argumentativa e o processo atencional, buscaremos desenvolver a análise ilustrativa de uma propaganda da Justiça Eleitoral.

 

 

Sessão de comunicação 37

 

1 - Estratégias e Imaginários Sociodiscursivos em reencenações narrativas da Lenda “Os Gaveteiros”. FLAUSINO, Gabriele Cerceau (UFOP)

A proposta de comunicação intitulada “Estratégias e Imaginários Sociodiscursivos em reencenações narrativas da Lenda ‘Os Gaveteiros’” tem como objetivo apresentar a análise discursiva de narrativas orais que reproduzem a “Lenda dos Gaveteiros” em suas diferentes versões. Tal lenda, que faz parte do repertório das tradições orais do país, corresponde a uma prática discursiva que tem circulado de geração em geração na cidade de Mariana-MG e arredores, atribuindo designações identitárias, muitas vezes pejorativas, aos seus habitantes. Em seu desenvolvimento, a pesquisa ressaltou a importância da abordagem discursiva do acervo imaterial da cidade e a constituição identitária coletiva. Fundamentada em aspectos da retórica aristotélica e da Análise do Discurso, visou também à reflexão sobre questões da memória discursiva e de seus impactos argumentativos no imaginário atual e na construção de um ethos coletivo. Metodologicamente, adota conceitos e procedimentos da Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau, em especial, voltando-se para a “memória discursiva” e os “modos de organização do discurso”, bem como as reflexões de Denise Jodelet, sobre as “representações sociais”.

 

2 - A importância do ethos no processo argumentativo. SOBRAL, Gilberto Nazareno Telles (UNEB)

A retórica surge no século I.V a.C., na Sicília, numa relação estreita com o surgimento da polis e, consequentemente, da democracia, uma vez que todos os cidadãos, isto é, os homens livres, podiam reunir-se em praça pública para defender os seus direitos. Para Aristóteles, à retórica não interessa o conteúdo, as ideias do orador, mas os meios por este utilizados para a adesão das ideias por parte do ouvinte. Na atualidade, Perelman e Olbrechts-Tyteca, com o Tratado da Argumentação, revalorizam a retórica antiga, concebendo-a como a Nova Retórica. Neste trabalho, discute-se o conceito de ethos, a partir dos estudos aristotélicos e dos trabalhos de Maingueneau, no campo da Análise do Discurso, bem como acerca da Nova Retórica, a fim de apresentar uma proposta de leitura de um documento histórico, que compõe o corpus da pesquisa intitulada Polifonia e Argumentação na relação Colônia-Metrópole nos séculos XVII e XVIII, desenvolvida na Universidade do Estado da Bahia. Tal estudo tem demonstrado algumas formas de agir e de pensar dos camaristas da Cidade do Salvador frente às diversas situações cotidianas da cidade, visto que, pela linguagem, o homem não apenas conhece o mundo, mas também age como ser livre, pensante e político.

 

3 - O engendramento do ethos e do pathos através do logos. QUEIROZ, Marcos Vieira de (UFOP)

O objetivo desta comunicação é apresentar alguns resultados alcançados em nosso trabalho de Iniciação Científica, no interior do projeto PIBIC/CNPq/UFOP, intitulado “A argumentação nos discursos sociais: por uma metodologia de análise”, dirigido pelo Prof. Dr. Melliandro Mendes Galinari, no Departamento de Letras da UFOP. O ponto de partida de nossas reflexões serão as tipologias argumentativas apresentadas por Perelman & Olbrechts-Tyteca (1956), em seu Tratado da Argumentação. Num primeiro momento, buscaremos entendê-las como ferramentas teóricas possíveis para a apreensão do logos no discurso, em sua acepção aristotélica de discurso e raciocínio. Num segundo momento, e partindo do pressuposto de que as provas retóricas são pragmaticamente interdependentes na linguagem em uso, mostraremos como o logos, apreendido através das mencionadas tipologias, participa ativamente da construção do ethos e do pathos. Nesse sentido, ologos, enquanto materialidade discursiva, é entendido como a condição primeira para a existência das demais provas retóricas. Para ilustrar tais reflexões, analisaremos alguns editoriais do Jornal Ponto Final, circulante na cidade de Mariana/MG, ressaltando o seu engajamento retórico-político no referido Município.

 

4 - Argumentação e doxa: a importância dos valores e das crenças no discurso persuasivo. GALINARI, Melliandro Mendes (UFOP)

Na Análise do Discurso (AD), em autores como Amossy, Plantin, Charaudeau e outros, de inspiração predominantemente (platônico-)aristotélica e, algumas vezes, perelmaniana, é pública e notória a importância conferida à doxa (valores, crenças, opiniões, lugares comuns) para que possamos compreender, enquanto analistas, a força persuasiva dos discursos. A doxa é vista, assim, como “o peso e a medida” da instituição concreta da adesão, uma vez que o auditório – alvo dos empreendimentos retóricos – avalia, de alguma forma, os discursos a ele apresentados, atividade sócio- cognitiva balizada por bagagens de crenças, valores e saberes partilhados, o que, ademais, orienta a sua reação efetiva diante dos discursos. Esta comunicação pretende abordar essa boa e velha questão, porém, partindo de um ponto de vista ainda “esquecido” pela Análise do Discurso: aSofística. Acredito que essa via de reflexão poderia oferecer à AD subsídios teóricos alternativos à hegemonia platônico-aristotélica reinante nos estudos discursivos, permitindo-nos uma compreensão maior do problema e, até mesmo, um diálogo crítico com autores atuais da AD, como, por exemplo, Charaudeau (e seu séquito), que opõe abstratamente termos como doxa episteme (“saberes de crença” versus “saberes de conhecimento”), algo inviável no âmbito da filosofia sofística, diante de um Górgias ou Protágoras de Abdera.

 

 

QUINTA FEIRA, dia 30, 15h30 às 17h30

 

Sessão de comunicação 38

 

1 - Retórica e Literatura: uma análise de Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho. SANTOS, Rosana Baptista dos Santos (UFLA)

Esta comunicação apresentará uma análise do romance Fantasia para dois coronéis e uma piscina, do ficcionista português Mário de Carvalho. No primeiro capítulo do romance, há uma discussão metaficcional, com caráter introdutório, sobre os principais componentes de um texto literário, a saber: a ação, a personagem e seu desenho moral, os conceitos e o ritmo. Retomando as considerações da Arte Poética, de Horácio, quase na íntegra, o narrador, em tom irônico, critica as características do texto do qual faz parte e se dedica a demonstrar ao leitor as estratégias adequadas para a elaboração de um texto literário. Um dos aspectos abordados pelo narrador é a elaboração do discurso argumentativo das personagens, que pressupõe cinco fases: a inventio, a dispositio, a elocutio, a memoria e a pronuntiatio. A linguagem é várias vezes mencionada pelo narrador, que se interroga sobre que estrutura discursiva deve priorizar, ou seja, que linguagem usar, mais plana ou mais ornamentada, a fim de adequar a linguagem ao tipo de personagem ou às ações que descreve. Assim, pretende-se demonstrar como o narrador faz uma reflexão sobre as regras da construção de um bom texto literário, ou seja, da seleção de seus principais elementos.

 

2 - Segunda Sofística: aticismo. AMATO, Rosangela Santoro de Souza (DLCV-PPGLC-USP)

Ao longo dos três primeiros séculos da era cristã, nas províncias romanas cujos habitantes eram falantes de grego (e mesmo em algumas em que se falava latim), era costume reunirem-se membros da elite (do sexo masculino) para assistir a performances declamatórias de oradores. Essas exibições não tinham caráter deliberativo ou judiciário (de acordo com a divisão proposta por Aristóteles na Retórica 1358a-9a), mas eram realizadas para deleite de uma audiência, isto é, eram epidíticos. Em geral propunha-se um tema sobre o qual o orador devia improvisar. Esse “fenômeno” recebeu o nome de Segunda Sofística, expressão cunhada por um autor do século III da era cristã – Filóstrato, o velho, em Vida dos Sofistas. Essas apresentações eram pautadas por uma série de convenções e regras que se aplicavam, por exemplo, sobre a apresentação pessoal do orador (vestimentas, aspecto físico, etc..) e à linguagem empregada. Com algumas raras exceções, todos os oradores deviam utilizar o grego ático dos séculos IV-V a.C, fenômeno conhecido como “aticismo”. A capacidade de aticizar era um indicador de identidade social – definia a pertença à classe dospepaideumenoi (educados) em oposição à dosidiotai e agroikoi (rústicos). Nessa apresentação, pretendemos discutir o aticismo e suas implicações na prática retórica da época imperial. Esta pesquisa insere-se no projeto do grupo de pesquisa Imagens da Antiguidade Clássica (coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Martins) e o estudo do aticismo e suas relações com o gênero epidítico nos permite identificar os modos de afirmação da identidade grega no período imperial romano por meio do discurso.

 

3 - O Cícero de Castiglione: o De Ridiculis e Il Libro del Cortegiano (1528). AGNOLON, Alexandre (UFOP)

Parte significativa do Il Libro del Cortegiano, de Baldassare Castiglione, publicado em 1528, é dedicada ao riso, precisamente ao humor que deve nutrir o verdadeiro cortesão. Temperado de observações engenhosas e bem humoradas pelos interlocutores, modelos de célebres cortesãos, o diálogo é salpicado de episódios engraçados e anedotas ao modo do De Oratore, de Cícero. Meu objetivo, neste trabalho, é estabelecer alguns apontamentos acerca da maneira pela qual o humanista italiano adapta, filtra, por assim dizer, as ilações a respeito do riso presentes no segundo livro do De Oratore (2. 216-290), incorporando-as à circunstância bastante diversa da diatribe judiciário-deliberativa que constituía o horizonte imediato do Arpinate. Além disso, a leitura que de Cícero faz o humanista pode nos atestar não só a existência de uma espécie de tratadística do risível, mas sobretudo que é exemplo profícuo da recepção dos antigos e da retórica em particular, na Itália do século XVI.

 

4 - Entre suasórias e controvérsias: a representação de formas degradadas de eloquência no Satyricon de Petrônio. BIANCHET, Sandra Maria Gualberto Braga (UFMG)

Em geral, credita-se à falta de liberdade política na época imperial a transformação por que passou a oratória romana depois de Cícero, que legou à posteridade um corpus singular de teoria e prática oratórias em língua latina (cf. Tácito, Dialogus de oratoribus, 36 et passim). No novo contexto político pós-republicano, centrado no poder absolutista do Princeps, a eloquentia cede espaço à declamatio, e discursos perfeitos, resultado do tratamento grandiloquente da oratória aos importantes embates socioeconômicos no final da República, dão lugar aexercitationes banais e empoladas, produto de consultas imaginárias a personagens históricos ou mitológicos (suasoriae) ou de questões hipotéticas de teor jurídico (controuersiae). Neste trabalho, objetiva-se abordar a representação dessas formas degradadas de eloquência no Satyricon, de Petrônio, obra de ficção em prosa e verso de tempos neronianos, de modo a evidenciar os recursos de que o autor se vale para criticar o retoricismo dominante à época, que modificou o gosto e a produção literária do período imperial.

 

 

Sessão de comunicação 39

 

1 - Leitura, gênero e retextualização no ensino médio: as contribuições da pedagogia retórica na formação de leitores e escritores competentes. COGO, Vera Lucia, EE A. Giovannini

O presente trabalho é parte de uma investigação que apresenta e retoma aspectos centrais da Pedagogia Retórica, tendo como foco principal a leitura e a produção textual no processo ensino-aprendizagem de alunos do Ensino Médio. Esta pesquisa foi realizada em duas etapas. A primeira etapa aconteceu em sala de aula com alunos do Ensino Médio profissionalizante do Curso Normal, que atuarão nas séries iniciais do Ensino Infantil. Foi realizado um mapeamento das práticas de “letramentos” desenvolvidas nessas turmas, focalizando aulas de leitura e produção textual, envolvendo vários gêneros. Na segunda etapa, analisou-se o discurso produzido nessas práticas à luz da teoria de Bakhtin. Todavia, o objetivo maior foi extrair da Pedagogia Retórica princípios norteadores para a formação de leitores e escritores competentes. Sobre o corpus teórico, foram considerados os trabalhos que discutem estratégias de leitura e produção textual em sala de aula: Koch (2006), Silva (1993); autores da Pedagogia Retórica: D’Angelo (1980), Fiandra (2002), Mosca (2001), Reboul (2004), Amarante (2007), Emediato (2004), Perelman (2000) e ainda autores que investigam gêneros, produção textual e retextualização: Marcuschi (2000/2007) e Costa Val (2004), dentre outros. Os resultados da pesquisa reafirmam a importância de investir na formação de professores para que atuem na formação de leitores e escritores desde as séries iniciais.

 

2 - O estudo da argumentação e o espaço escolar. SILVA, Viviane Netto (UFMG)

Conforme assevera Plantin (2004), a retórica se caracteriza como “a ciência teórica e aplicada do exercício público da fala, proferida diante de um auditório dubitativo, na presença de um contraditor”. O autor salienta que, “por meio de seu discurso, o orador se esforça para impor suas representações, suas formulações e para orientar uma ação”. No âmbito da retórica argumentativa, Plantin (2004) destaca que uma intervenção retórica se constitui como “um conjunto de atos de linguagem planificados (...) que visam uma ação sobre os participantes na reunião, em vista de uma tomada de decisão”. Podemos notar, a partir dos dizeres do autor, que a retórica argumentativa toma como foco o termo ação, que está ligado à adesão de um determinado auditório, e também à persuasão. Os estudos da retórica clássica nos interessam particularmente pois, em nosso trabalho, temos como objetivo aplicar o modelo da argumentação proposto por P. Charaudeau para investigar as relações instituídas entre professores e alunos em manuais didáticos de ensino fundamental. Como destaca Emediato (2001), “a construção da argumentação, para Charaudeau, encontra-se inserida em princípios gerais que regulam o discurso”. Em nossa pesquisa, buscaremos analisar esses princípios, aplicá-los ao discurso didático, tendo como foco específico as representações dos profissionais da educação sobre o espaço e também sobre a instituição escolar.

 

3 - A Retórica midiática do agendamento. PARZIANELLO, Geder Luis (Universidade Federal do Pampa)

As teses sobre agendamento da mídia nascidas desde 1972 por McCombs & Shaw a partir das ideias de Walter Lippmann (1922) e de Gabriel Tarde (1901) e outros nunca foram tão atuais se trazidas à luz da compreensão das novas mídias sociais, em rede, pela internet, principalmente se amparadas pela perspectiva dos estudos de Retórica. A proposta é identificar marcas retóricas no discurso midiatizado manifesto em comunidades como o Twitter e promover uma leitura interdisciplinar entre uma das maiores teorias norte-americanas de comportamento humano, que foi o Agenda-setting, e suas relações com investigações retóricas contemporâneas sobre comunicação e interações sociais. O trabalho interpela contribuições históricas como as teses de Leon Festinger sobre a ressonância cognitiva e de Chaïm Perelman sobre a construção do auditório para pensar também novos e provocativos sentidos da interação humana por meio do verbal, em especial neste estudo, focando na narrativa midiática de cidadãos usuários do Twitter.

 

4 - Padrões de co-ocorrências, extração de keywordsclusters e concordâncias na análise de texto retórico no contexto de ensino da língua grega. FERREIRA, Anise A. A. D’Orange  (UNESP/ARARAQUARA)

Esta comunicação é parte de um projeto de ensino do grego antigo baseado em gêneros, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento do trabalho docente, adotada pelo Grupo Alter e, ao mesmo tempo, dentro de uma abordagem empirista, com técnicas informatizadas usadas na Linguística de Corpus,  visando a uma aprendizagem da língua conduzida por dados (data-driven learning). O objetivo, aqui, é apresentar, empregando tais técnicas,  uma análise de elementos linguístico-discursivos de textos de práticas retóricas, como  “Contra Neera” [Demósteens] 59, contemplados no ensino de grego ou de literatura da retórica grega.  A extração de keywords fornece os  termos recorrentes estatisticamente mais significativos dentro da obra e serve de âncoras para clusters e elementos  que articulam semanticamente o texto em passagens relevantes, auxiliando a aprendizagem da língua e a compreensão do texto.  Os padrões de co-ocorrências  revelam o uso de expressões dentro da situação representada no texto, e  as concordâncias, a localização dos padrões, incluindo aqueles  previstos teoricamente, tais como indicadores de vozes e modalizações,  por meio de uma visão conjunta e agrupada dos mesmos. Tal análise, assim,  permite  instrumentalizar o estudante-pesquisador na obtenção de características de um determinado texto, as quais participam de um gênero retórico.

 


Sessão de comunicação 40

 

1 – Proêmios de Demóstenes. FONSECA, Valesca Scarlat Carvalho da (UnB)

Demóstenes é reconhecido como o autor de um corpus de proêmios isolados. Analisados de acordo com os três meios de persuasão do discurso (ethospathoslogos), da Retórica aristotélica, os proêmios se apresentam com caráter marcadamente metalinguístico, em que se desenvolve o lógos argumentativo a respeito dos discursos deliberativos. Nota-se também uma manifestação indireta do ethos, ao construírem a imagem do bom orador, que deve apresentar o melhor discurso. Comparados aos proêmios dos discursos inteiros de Demóstenes, os quais se desenvolvem em torno do assunto que será abordado na exposição e provas do discurso, os proêmios isolados apresentam majoritariamente o tema metalinguístico, tratando de como se fazer um discurso deliberativo. Nesta comunicação, pretendo mostrar que provavelmente tenham sido feitos sem a finalidade de serem utilizados em discursos futuros, podendo fazer parte de uma prática pessoal do orador, a fim de treinar sua habilidade escrita e argumentos que constroem o seu caráter, como também apresentar Demóstenes como um possível pensador da retórica, que pode ter contribuído, além de seus discursos, com possíveis manuais de modelos, comuns em Atenas e reconhecidos como as primeiras contribuições à retórica.

 

2 - O uso da representação do galo como expressão da violência no Contra Cónon de Demóstenes. LEITE, Priscilla Gontijo (Universidade de Coimbra)

No discurso Contra Cónon de Demóstenes, no parágrafo 9, tem-se a descrição de uma cena na qual Cónon e seu filho, após surrar Aríston, deixa-o nu na lama e depois começa imitar um galo: cantando e batendo os braços. A descrição da cena pitoresca levou alguns estudiosos a questionar sua veracidade. A imitação do galo por Cónon possui um elevado grau de violência simbólica. O seu canto vitorioso sobre o corpo prostrado de Aríston, que não conseguia ter forças nem para se levantar nem para falar (8), tem a intenção de humilhar o seu adversário remetendo a um apelo erótico e agressivo, pois o galo sodomiza o derrotado. O presente trabalho tem por objetivo entender as razões para o uso dessa narrativa, bem como demonstrar a sua função para no argumento do orador que pretende caracterizar Cónon e seu filho como pessoas violentas e ultrajantes. Dessa maneira, a figura do galo serve para reforçar o argumento da hybris explorado em diversos momentos do discurso.

 

3 - Demóstenes em Dionísio de Halicarnasso. ZAGHETTO, Sonia (UnB)

Crítico literário, historiador e professor da elite romana do século I a.C, Dionísio de Halicarnasso aponta Demóstenes como o mais perfeito orador ático. E o faz em textos repletos de exemplos, ancorados em um método comparativo inovador. A preferência de Dionísio por Demóstenes é tão notória, que – embora a qualidade da obra do orador seja indiscutível – chega a gerar suspeitas sobre a isenção do crítico e de seu critério de seleção dos excertos. Nesta comunicação, analisa-se a recepção de Demóstenes em Dionísio nos textos Demóstenes, Composição Literária e A Primeira Carta a Ameu. A inovação está na leitura comparativa desses textos, que resulta em uma reflexão agrupadora dos elementos que constituem o pensamento de Dionísio sobre Demóstenes. Apresenta-se uma visão coerente das idiossincrasias de Dionísio na apreciação da oratória de Demóstenes, os argumentos que utiliza e os recursos dos quais se vale para persuadir o leitor. Os elogios não se devem exclusivamente à qualidade dos discursos de Demóstenes: os libelos deste contra Felipe da Macedônia, eivados de referências à grandeza ateniense (e de alertas acerca do perigo do avanço estrangeiro sobre uma Atenas que ele considera superior), servem à perfeição a um grego saudoso do passado glorioso de sua pátria subjugada por Roma.

 

4 - A história na retórica de Demóstenes. ROCHA, Sandra Lúcia Rodrigues da (UnB)

Retórica e Historiografia desde sempre têm andado de mãos dadas. Em geral, tende-se a investigar como a retórica está fundida ao discurso do historiador, analisando-se as estratégias retóricas como elementos que desvelem a construção do sentido dos textos que se dizem contar ou registrar a história. Esta comunicação tem orientação temática oposta: focaliza os modos pelos quais discursos da oratória ateniense produzidos no século IV a.C. – portanto, em um contexto de desenvolvida reflexão sobre retórica – servem-se da história. Mais precisamente, a partir da análise de alguns discursos de Demóstenes e de formulações da Retórica a Alexandre e da Retórica aristotélica, todos textos relativamente contemporâneos uns dos outros, busca-se responder à seguinte questão: de que maneira dados e informações sobre a história de Atenas, aqui entendida como a história do passado de Atenas para as audiências do século IV, são utilizados por Demóstenes para construir seu jogo persuasivo na articulação discursiva das categorias de ethos, pathos e logos?

 

 

Sessão de comunicação 41

 

1 - Péricles orador no Fedro – o aluno de Anaxágoras na retórica. CAMPOS, Rogério Gimenes de (USP)

Segundo Sócrates, no Fedro, o conhecimento celeste de Anaxágoras tornou Péricles um grande orador porque a conduta do homem deveria estar de acordo com os movimentos dos astros. Anaxágoras, ao notar a presença e a ausência do intelecto (noûs), forneceu matéria prima para uma experimentação discursiva análoga que estudava o poder do discurso aplicado às almas. A importância que Platão dá a Anaxágoras é notável, embora nem sempre em seus diálogos tenha aparecido assim. Nesse sentido, procuraremos mostrar como a passagem em que Anaxágoras é mencionado (269a-270a) traz, pelo menos, dois elementos importantes à leitura de como é vista a retórica no Fedro: a) a meteorologia atrelada à tagarelice dos sofistas e b) o uso da figura retórica do para-elogio (parepainos).

 

2 - Sobre o Fedro e o jogo entre retórica e filosofia. COELHO, Venúncia Emília (UFMG)

O tema da retórica é controverso desde o século V a.C. Mesmo antes da obra de Aristóteles, considerada a primeira teorização específica sobre o tema, a disputa sobre as características e alcances de tal prática já se configuravam como um tópico polêmico. O delineamento da prática retórica, bem como seus limites e implicações valorativas, tornam-se, imediatamente após o seu surgimento formal, uma questão que colocará em lados opostos filósofos e sofistas. Nos diálogos platônicos, especialmente aqueles considerados socráticos, que carregam a tarefa de recuperar a figura de Sócrates, vemos o esforço platônico em diferenciar seu mestre dos sofistas contemporâneos. Nesse quesito, a Apologia, o Eutídemo, O Górgias e o Protágoras são textos exemplares e ao longo de nossa comunicação teremos a oportunidade de evidenciar em suas passagens tal problemática. Devemos nos ocupar detalhadamente do Fedro na medida em que nele há a distinção, via construção literária, entre o logógrafo e o dialético. O objetivo de nossa comunicação é apresentar as tensões existentes entre retórica e filosofia a partir do diálogo Fedro, bem como apontar para a possibilidade de percebermos os diálogos platônicos em chave retórica.

 

3 - Sofistica e literatura nos Mitos de Chutlhu de Roberto Bolaño. AMARO, José Luis Martinez (UnB)

Si el sofista es aquel que en una discusión parte del argumento menor o más débil para luego cambiarlo de lugar, en un movimiento que puede ser llamado de paródico, podríamos describir como en algunos textos, que fueron presentaciones públicas, Roberto Bolaño realiza una inversión de lugares comunes cuyo efecto, que aquí llamaré de  sofístico tiene como resultado el de construir un lugar polémico, donde la perlocución promueve un deslizamiento:  hablar desde afuera del canon para colocarse dentro. Como alternativa a la historiografía de base kantiana y hegeliana,   propongo  el género epídictico o demostrativo, cuyo cometido,  es el situarnos en el presente de las cosas, donde debemos decidir sobre cuales son los textos que son buenos y cuales son malos para la comunidad.   Bolaño  desarrolla una estrategia persuasiva que consiste en dar vuelta el sentido común ?el sueño dóxico-  para lo cual es necesario fuerza para llevar la contra y un placer aristocrático en desagradar.

 

4 - O caráter aporético da busca erótica no Banquete. MARQUES, Marcelo P. (UFMG)  

No Banquete, a verdade dialética do amor é construída dramática e discursivamente, passo a passo, ao longo de todo o diálogo, através de todos os interlocutores, não apenas ao longo do discurso de Sócrates-Diotima. O diálogo sobre o amor apresenta-se, assim, como um sistema discursivo com múltiplas entradas, ressonâncias e conexões. São diversos os elementos e níveis de significação que se entrelaçam contraditoriamente, configurando uma estrutura aporética: elogio e verdade, intuição e discurso, deus e não deus, afeto e estrutura, carência e plenitude, parte e todo, amante e amado, loucura e filosofia. Proponho que, ao provocar impasses em diversos níveis, as aporias são, paradoxalmente, ocasiões efetivas de acionamento da pesquisa e de reformulação dos problemas que o amor impõe à reflexão filosófica, constituindo o meio propriamente erótico de fazer com que a pesquisa dialética avance.

 

 

Sessão de comunicação 42

 

1 - Imitação e Humanismo Português: Especificidades do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. NEVES, Ana Carolina Corrêa Guimarães (USP)

Como se sabe, o conceito de Imitação (Mímesis), inicialmente pensado pelos gregos, veio sofrendo algumas transformações ao longo da história, primeiramente, com as divergências entre os próprios gregos, posteriormente,com a visão dos romanos (Imitatio) e depois, com a nova abordagem, de certa forma cotidiana e desgastada, da Idade Média e do Renascimento (Imitação). Abordaremos um pouco desses aspectos, particularmente as ideias de pensadores como Platão, Aristóteles, Dionísio de Halicarnasso, Quintiliano, José Antonio Maravall e Fox Morcillo, a fim de que haja um melhor entendimento de todo esse processo, em especial, na poesia de dois poetas do humanismo português, são eles: João Roiz de Sá de Meneses e João Roiz de Lucena, importantes por terem feito traduções para o português de algumas epístolas de heroínas míticas retiradas das Heroides de Ovídio. Essas traduções chegaram até nós preservadas por meio do Cancioneiro Geral organizado por Garcia de Resende em 1516. Acreditamos que a escolha pela tradução de determinadas epístolas não foi aleatória. Antes, havia o desejo sim, de que a mensagem nelas presente fosse de novo colocada em voga, ainda mais em um momento de expansão ultramarina como aquela de Portugal de Quinhentos.

 

2 - O Grupo Corpo e a coreografia verbal de Martin Codax. ROCHA, Janaína Marques Ferreira (PUC/SP)

Esta comunicação analisará o processo de tradução criativa das cantigas trovadorescas realizado pelo Grupo Corpo no espetáculo “Sem Mim”. Trata-se de um importante grupo brasileiro de dança contemporânea que desenvolveu um trabalho em torno das cantigas do poeta galego Martin Codax, com coreografia de Rodrigo Pederneiras e concepção musical de José Miguel Wisnik e Carlos Nuñez. Composta por sete cantares de amigo, o cancioneiro codaciano conta com outra fonte reveladora de sua ação comunicativa: as partituras musicais descobertas no início do século XX. Ao lado de sua importância melódico-musical, as sete cantigas chamam atenção pela estreita unidade temática, formando um só poema de enredo amoroso, como uma espécie de pequeno romance dividido em capítulos. Esta arquitetura retórico-estilística ganhou a sua máxima expressão com o princípio estruturante do paralelismo, que permite criar pequenos universos poéticos que não apresentam um progresso linear, senão um pausado desenvolvimento espiralar, como se todo o texto girasse cíclica e obsessivamente ao redor de si mesmo. Portanto, a poesia trovadoresca galaico-portuguesa está visceralmente ligada à sua performance, à sua execução. Assim, perguntamo-nos: De que maneira o espetáculo “Sem Mim” explora esta arquitetura narrativa em seus aspectos coreográfico, cenográfico e musical?

 

3 - A Dimensão Retórica e a Memória nos Epitáfios Laudatórios de Pêro de Andrade Caminha. AMARAL, Eronildes Teixeira (UESB)

O presente trabalho visa a escrutinar a aplicação de procedimentos retóricos na celebração da morte nos epitáfios de Pêro de Andrade Caminha, os quais instituem o louvor de varões ilustres através dos preceitos de loci próprios do gênero demonstrativo, da poesia moral, da oração fúnebre e da ars moriendi, de que se encontra muito próximo. Para tanto, analisar-se-á sistematicamente a presença dos elementos convencionais recorrentes na poesia do poeta, que celebrou a vida heroica e a morte de tantos personagens em epitáfio, compondo uma poesia que se destina à comemoração, como os túmulos designados a proclamar os mortos que neles jaziam. O epitáfio, elevado a gênero poético, passou a funcionar-se como monumento comemorativo, constituindo, assim, um monumentum que perpetua a memória ilustre.  Consoante, Alcáçar, a oração fúnebre compõe-se de exórdio, confirmação e peroração. Tais divisões retóricas demonstram claramente que o ilustre morto está amparado por instituições políticas, sociais e religiosas, já que é ressaltado o bem comum da pátria, da igreja e os valores familiares que são passados de geração para geração, de forma a garantir a perpetuidade dos feitos do defunto por meio das letras.

 

4 - "Guerra de olhares": emulação e agudeza em Venus and Adonis (1593), de Shakespeare. SILVARES, Lavinia (UNIFESP)

Nesta apresentação, proponho investigar alguns aspectos da relação entre a emulação dos antigos e a produção da agudeza na poesia inglesa do século XVI, partindo da leitura de Venus and Adonis, de Shakespeare, publicado pela primeira vez em 1593, em Londres. Nesse poema narrativo, a emulação de uma passagem das Metamorfoses de Ovídio é explícita e marca o lugar de autoridade a partir do qual diversas técnicas de amplificação do tópico inventivo e elocutivo serão empregadas para efetuar a agudeza do poema. Assim, proponho discutir como se legitimam as novidades de matéria e estilo poético em Venus and Adonis ao mesmo tempo em que se preservam as relações de pertencimento à autoridade antiga imitada. Para esse propósito, pretendo, antes, examinar um texto preceptivo da época, o Discurso comparativo, de Francis Meres, e ver como se realiza a operação de associação dos “novos” poetas a autoridades antigas.

 

 

Sessão de comunicação 43

 

1 - A mise-en-scène, a face e o auditório presumido na entrevista radiofônica. PESSOA, Sônia Caldas (UFMG)

Os participantes da entrevista radiofônica se envolvem em uma mise-en-scène em busca da audiência do público. Ao desenvolver as estratégias que constituem o trabalho de face do falante (Goffman, 1967), os oradores usam argumentos para persuadir o auditório presumido, na perspectiva dos conceitos propostos por Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996). A entrevista radiofônica torna a argumentação tanto do entrevistador quanto do entrevistado mais complexa, uma vez que o auditório, ou aqueles a quem o orador busca influenciar com sua argumentação, é não só o interlocutor direto, mas também o ouvinte do rádio. O dispositivo rádio, considerado por Charaudeau (2007) como universo por excelência da voz, é particularmente eficiente em algumas situações linguageiras, como a entrevista. Muitas vezes, é preciso que entrevistador e entrevistado tomem a palavra e interpelem o ouvinte para conquistar a sua atenção e a adesão ao seu argumento ou aos seus argumentos múltiplos, pois o público do rádio pode ser considerado um auditório heterogêneo, que reúne vários grupos sociais. Nesta comunicação, interessa-nos particularmente o jogo de argumentos dos participantes da entrevista com vistas à conquista do público.

 

2 - Ethoslogos pathos no gênero editorial na cidade de Maceió-AL. SANTOS, Maria Francisca Oliveira (UNEAL/UFAL)

Este trabalho mostra a constituição do ethos discursivo em consonância com o logos e o pathos, por meio dos elementos verbais, em gênero textual midiático. Esse ethos é tomado como figura central que não tem objeto próprio, mas se liga à imagem que o orador passa de si mesmo e que o torna singular aos olhos do auditório, este que, muitas vezes, fica a ouvi-lo e a segui-lo. Procura despertar as emoções e os sentimentos do outro (pathos), quando fala acerca de um objeto teórico, o conhecimento propriamente dito (logos). O estudo busca fundamentos em Abreu (2004), Meyer (2007), Reboul (1998), Marcuschi (2008), dentre outros. A análise do gênero editorial tem um cunho interpretativo à luz da fundamentação teórica destacada, evidenciando os elementos constitutivos de caráter retórico, os quais advêm da análise textual do gênero, e os fatores ligados às relações interpessoais entre retor (editorialista) e auditório social (leitores do jornal). A relevância do trabalho está em observar o gênero em consonância com os estudos da retórica, podendo extrapolar o ambiente da sala de aula para outros cenários discursivos.

 

3 - A retórica argumentativa como estratégia no jornalismo em prol dos direitos femininos. ROSA, Gerlice Teixeira (UFMG)

A proposta desta comunicação é discutir a retórica no âmbito jornalístico do século XXI. O jornal A Fêmea, publicação do CFEMEA, Centro Feminista de Estudos e Assessoria, de  Brasília, é o foco das análises. O jornal foi lançado em 1992 e tem como objetivo principal defender os direitos da mulher e lutar por eles. Trata-se de uma organização não-governamental que defende, como marcos políticos, “o feminismo, os direitos humanos, a democracia e a igualdade racial”, segundo informações do site do CFEMEA (http://www.cfemea.org.br). A força argumentativa da publicação será investigada neste trabalho com o intuito de identificar qual a estratégia lançada pelo grupo CFEMEA para apresentar as lutas femininas e para cumprir com seu objetivo principal de defender os direitos da mulher no espaço público. Trataremos da utilização estratégica desse sistema de significados apresentado na publicação periódica a partir dos usos comunicativos lançados pelos editores do jornal. O apelo racional, emotivo e de confiabilidade será observado na análise com o objetivo de compreender o uso linguageiro e comunicativo do qual se vale a publicação periódica.

 

4 - A Arte Retórica no jornalismo impresso: uma análise da argumentação editorial. FURTADO, Maria Aparecida Silva (FUPAC)

O objetivo desta comunicação é apresentar uma análise da construção argumentativa de um editorial do jornal impresso Folha de S. Paulo cuja temática é a decisão do Superior Tribunal da justiça (STJ) em proibir provas testemunhais para criminalizar a embriaguez na direção de veículos automotores. A análise da argumentação, neste editorial, baseia-se em fundamentos da Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), que descreve os tipos de argumentos, neste caso, os baseados na estrutura do real e nas ligações que fundamentam a estrutura do real. Os argumentos fundamentados na estrutura do real parecem suficientemente garantidos para estabelecer uma solidariedade entre juízos admitidos e outros que se procuram admitir. Eles, entretanto, não expressam uma descrição objetiva do real, mas o modo pelo qual as opiniões o representam. Nesse sentido, a informação midiática, expressa nesse editorial, não se limita apenas ao relato do “real” produzido no espaço público, mas evoca, também, crenças supostamente compartilhadas com a instância leitora e cidadã, revelando, assim, uma problematicidade argumentativa mais ou menos apresentada como válida. Assim sendo, baseado em Meyer, 1986 (apud Emediato, 2010), busca-se, aqui, associada à análise descrita acima, fazer, também, uma verificação da direção problematológica que se apresenta na construção deste editorial.

 


Sessão de comunicação 44

 

1 - A relevância do pathos na construção de posicionamentos éticos assumidos em produções escritas argumentativas. AZEVEDO, Isabel Cristina Michelan de (USP/Grupo Marista)

O presente trabalho parte dos estudos da Retórica na contemporaneidade, especialmente decorrentes das pesquisas da Nova Retórica (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 2002; PLANTIN, 1998; MOSCA, 2004 e outros) ao retomar a ideia aristotélica de raciocínio dialético, para discutir o papel do pathos na construção do discurso argumentativo que constitui os textos produzidos para o Exame Nacional do Ensino Médio. Ao estabelecer relações com a Filosofia e as Ciências da Linguagem, assume uma perspectiva comunicativo-interativa para também refletir acerca das condições que favorecem o desenvolvimento das competências definidas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) para a composição de textos persuasivos. Atenção especial é dedicada à quinta competência, que exige dos participantes um posicionamento crítico e ético diante das problemáticas sociais apresentadas como temas de reflexão. A análise de discursos argumentativos concretos possibilita identificar as estratégias utilizadas para obter a adesão do outro, bem como apontar os mecanismos ausentes que prejudicam a eficácia da argumentação. Produções textuais, elaboradas em 2004 (AZEVEDO, 2009), configuram o corpus desta análise e evidenciam o esforço dos sujeitos em associar o mundo da vida ao da cultura (BAJTIN, 1997, p. 8ss).

 

2 - Forma e sentido na construção do ethos em entrevistas na modalidade escrita: (dis)junções da Retórica e Linguística da Enunciação. FERNANDES, Ivani Cristina Silva (UFSM)

O presente trabalho tem como objetivo discutir as peculiaridades dos mecanismos retóricos e suas (dis)junções com as áreas da Linguística da Enunciação e da Linguística Textual, a partir da construção enunciativo-discursiva do ethos em entrevista. Para este fim, escolhemos, como amostra, a entrevista da presidente Dilma Rousseff, publicada na edição 2262 da Revista Veja, em março de 2012. Com base nos conceitos da Retórica, da Linguística da Enunciação e da Linguística Textual, pretendemos identificar, considerando a modalidade escrita, possibilidades de elaboração do ethosdiscursivo de uma personalidade pública. Desse modo, ao refletir sobre a questão da dinâmica entre forma e sentido, também discutiremos a maneira como se perfilam conhecimentos da Retórica em outros campos do saber, em especial, no da Linguística. Por outra parte, pensar sobre os mecanismos retóricos e os efeitos de sentido presentes em alguns exemplares da materialidade escrita — tais como as entrevistas — e, em especial, indagar quais sujeitos realmente se marcam em tal materialidade e com que propósitos.

 

3 - O ethos da mídia “independente”: o caso Caros Amigos. OLIVEIRA, Daniele de (UFMG)

O objetivo deste trabalho é fazer uma reflexão sobre como se desenvolve a construção discursiva doethos como estratégia argumentativa no discurso veiculado em editoriais da mídia impressa. O exemplar da mídia impressa selecionado como corpus é a revista impressa Caros Amigos, uma representante do denominado “jornalismo independente”. Deter-nos-emos na análise do editorial da revista por entendermos que é nesta seção em que se veicula a opinião de seu corpo editorial como um todo, de seu posicionamento ou tendência ideológica. A argumentação será considerada como a expressão de um ponto de vista e também como um modo específico de organização de um grupo de enunciados com o objetivo de garantir a adesão do auditório (PERELMAN &OLBRECHTS-TYTECA, 2005). O ethos (AMOSSY, 2005; EGGS, 2005) aqui será investigado como uma das estratégias discursivas utilizadas pelo editor da revista com o intuito de mostrar um posicionamento político-discursivo “de esquerda”, de validar uma ética “de esquerda”. O editorial de uma revista tem por objetivo construir a imagem da mesma perante seus leitores. Nesse caso, o editor convoca valores coerentes com os habitus teoricamente característicos do pensamento “de esquerda”, ou seja, o orador procura respeitar os saberes comuns, compartilhados com seu auditório.

 

4 - Semiótica, retórica e imagem da língua portuguesa. LARA, Glaucia Muniz Proença (UFMG)

Nosso objetivo, neste trabalho, é estabelecer um diálogo entre a semiótica francesa, considerada, em linhas gerais, como teoria da significação, e a retórica que, na acepção aristotélica, preocupa-se em descobrir o que pode engendrar a persuasão. A aproximação entre as duas disciplinas é, na verdade, recente, fruto das mudanças por que passou a semiótica nos últimos anos, entre as quais o interesse pela presença e pelo papel ativo do leitor na construção do sentido, questão inicialmente relegada ao segundo plano por uma teoria que privilegiava as relações internas ao texto. A inter-relação semiótica/retórica pode ser abordada de vários ângulos, entre os quais o exame de questões discursivas de persuasão e de argumentação, com os contratos fiduciários, a interação entre sujeitos e a construção de identidades (ethos). Nesse quadro, analisaremos as estratégias discursivas mobilizadas no fazer-persuasivo de professores de português do ensino básico que, por meio de respostas a um questionário de sondagem, buscam construir uma dada imagem da língua (portuguesa) e de seu usuário, para que o enunciatário/leitor, no fazer-interpretativo que lhe cabe, creia no discurso, nos valores que veicula e no próprio enunciador. O fazer-crer implica um fazer-parecer-verdadeiro, o que remete à noção de verossimilhança tão cara à retórica.

 

© 2018   II Congreso Brasileiro de Retórica Versão 11.01.13